‘A polícia agride primeiro para perguntar depois’, diz irmão de jovem morto por PM que arremessou cassetete em moto

Irmão de Vitor Cleace, que morreu neste domingo (16) na zona sul de SP, conta que jovem trabalhava como motoboy e era querido por moradores; de acordo com ele, após a morte, policiamento na região foi reforçado

Vitor Gomes Cleace, 21 anos | Foto: reprodução / Facebook

“A gente está em choque e com medo porque não imaginava que ele tinha morrido dessa forma”, desabafa o auxiliar de administração Vinicius Gomes Cleace, 25, irmão de Vitor Cleace, que foi atingido por um cassetete de PM enquanto dirigia e morreu após perder o controle da moto e bater num poste no último domingo (16/5).

De acordo com Vinicius, ele, Vitor e outros familiares estavam fazendo uma festa numa rua próxima de casa, no Jardim das Rosas, região do Capão Redondo, na zona sul da capital. “Tinha uns amigos e a minha família e aí teve uma hora que o Vitor pediu a moto para ir ao banheiro [em casa], foi na hora que ele passou por aquele posto”, conta.

Ele afirma que começou a estranhar a demora do irmão. “Foi dando umas 6h, 7h, ele não tinha voltado e a gente ficou sabendo que teve um acidente envolvendo um PM, mas a gente não sabia que era ele”, prossegue. “Tinha um pessoal perto do ponto de ônibus que tentou perguntar e ver quem era, mas os policiais não deixavam se aproximar e um amigo veio e me falou ‘olha, acho que aquela moto ali é sua'”, lembra.

Vinicius afirma que reconheceu a moto e tentou perguntar para a polícia sobre o irmão. “Disseram que não podiam dar informação, que tinha ir no 47º DP [Capão Redondo] para saber”, disse. A família percorreu dois prontos-socorros e a delegacia até descobrir onde Vitor estava. No entanto, só foi na segunda-feira (17/5), que ele teve acesso às imagens do mercado em frente ao posto de gasolina, na Rua Serra dos Dois Irmãos, que entendeu o que havia acontecido. “Esse vídeo chegou para mim por meio de um amigo e foi uma revolta enorme porque a gente não tinha imaginado”, lamenta. “Quando a gente tentou ir atrás de mais imagens em outros estabelecimentos comerciais, a gente viu muitos policiais nesse locais com câmeras. Os donos diziam que ou a câmera não filmava ou não tinha imagem”, prossegue.

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Na terça-feira (18/5), moradores revoltados com a morte do rapaz fizeram um protesto na região, um ônibus chegou a ser queimado. “A gente se organizou e ficou por ali, mas tudo de forma pacífica porque a gente tem medo da reação e não queria vandalismo. O pessoal só queimou uns pneus para fechar a rua e a polícia veio com bomba de gás mesmo com criança e idoso no local, logo em seguida a gente, da família, foi embora”, conta Vinícius.

O segundo mais novo de sete irmãos, Vitor era bem conhecido e bem querido no bairro, segundo Vinícius. “Ele era bem apegado com a família, trabalhava há três anos como motoboy numa pizzaria e não fazia mal a ninguém”, lembra. “O que ele queria era arrumar um dinheiro para comprar um carro, ele adorava moto e a dele a gente guardou em casa”. De acordo com ele, a mãe está a base de calmantes e chorando muito a perda do filho.

Vitor trabalhava de motoboy em uma pizzaria do bairro, conta irmão | Foto: arquivo pessoal

“É um misto de raiva, de tristeza porque desde então a polícia fica por aqui, oprimindo todo mundo, quando vai abordar manda desbloquear o celular, agora mesmo que você está falando comigo está cheio de viatura e um dos policiais estava perguntando quem mandou organizar o protesto”, denuncia.

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O auxiliar de administração conta que ficou sabendo que um amigo também recebeu golpe de cassetete no mesmo dia em que o irmão morreu. “Ele contou que passou por ali uns 30 minutos antes e os policiais jogaram o cassetete, mas pegou na mão dele e ele não se desequilibrou”, prossegue.

Já sobre o adolescente de 17 anos, Vinicius disse que o menino está em choque. “Ele conta que só lembra do policial jogando o cassetete porque depois ele desmaiou e não viu mais nada”.

Para Vinícius, as imagens são fundamentais para a família conseguir justiça. “A presença da polícia deveria trazer segurança e não medo porque aqui eles agridem primeiro, matam primeiro, para perguntar depois. Tem gente no bairro que tem mais medo da polícia do que de bandido”, lamenta. “Meu irmão estava sem capacete, mas essa não era a forma correta de abordar”, critica.

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