Atingido por cassetete de PM, jovem negro bate a moto e morre

Soldado alega que atacou Vitor Cleace porque jovem jogou a moto contra ele, mas vídeo desmente essa versão; PM ainda disse que Vitor tinha “um volume” na cintura — era uma carteira

Vitor Gomes Cleace, 21 anos | Foto: reprodução / Facebook

O jovem Vitor Gomes Cleace, de 21 anos, morreu após perder o controle de sua moto ao ser atingido por um cassetete jogado por um PM enquanto dirigia na região do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista no último domingo (16/5). A morte do rapaz motivou um protesto no local na noite desta terça-feira (18/5).

Imagens da câmera de segurança de um mercado em frente a um posto de gasolina na Rua Serra dos Dois Irmãos flagraram o soldado André Luiz Ferreira de Santana, 31, do 37º Batalhão Metropolitano, jogando um cassetete em direção a uma moto que passava. O veículo perde o controle e bate num poste. Um dos policiais chega a correr atrás e depois retorna para a viatura que está estacionada no posto.

De acordo com o boletim de ocorrência, o PM André, que estava acompanhado do soldado David Rodrigo Ribeiro, 32, disse que ele e o colega souberam que havia ocorrido um roubo na região e suspeitaram de uma moto em alta velocidade com dois ocupantes, que estariam “sem capacete somente com blusa de capuz e cobertos, e que tinha uma sacola preta tampando a placa”. Os policiais afirmaram que também suspeitaram de “um volume na cinta” do piloto da moto e que jogou sua tonfa (cassetete) porque o motociclista teria jogado a moto para cima, passando por ele e por David.

O vídeo mostra que, na verdade, foi o PM que andou em direção da moto e jogou o cassetete. Vitor perdeu o equilíbrio e acabou batendo num poste. Depois, segundo o BO, eles viram que o tal volume, na verdade, era a carteira com os documentos de Vitor, que estava com a habilitação atrasada e que a moto não tinha nenhuma irregularidade.

Os policiais afirmam que chamaram o resgate e que Vitor foi levado com vida ao Hospital do Campo Limpo, mas não resistiu. Na garupa, estava um adolescente de 17 anos que sofreu escoriações e foi levado à AMA (Assistência Médica Ambulatorial) do Campo Limpo pelos policiais.

No 47º DP (Capão Redondo), o delegado Alexandre Alves de Souza solicitou perícia para o local e registrou o caso como homicídio culposo na direção de veículo automotor e lesão corporal culposa na direção de veículo automotor. Os policiais aparecem como testemunhas e não como autores.

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Por causa das imagens, moradores da região começaram um protesto por volta das 18h30 de terça-feira (18/5) na Rua João da Cruz e Souza e também passaram pelo local onde Vitor morreu. Um ônibus chegou a ser queimado e fogo foi ateado em pneus na rua. Os presentes estendiam uma faixa com os dizeres “Tikao”, que é o apelido de Vitor, e “paz”. Também gritavam por “justiça” e “povo unido jamais será vencido”. O ato chegou a se dispersar algumas vezes, tendo se reorganizado na Rua Luisa Todi, que faz cruzamento com a Rua Estoril do Norte. De acordo com Well Amorim, integrante do Movimento Maloka Socialista, o ato dispersou por volta das 21h30 com ação da polícia, que disparou balas de borracha e bombas de gás.

‘As imagens são repugnantes’, diz ouvidor

À reportagem, o ouvidor das Polícias de São Paulo Elizeu Soares Lopes declarou que o caso é “absurdo” e assim que soube das imagens, nesta terça-feira (18/5), solicitou imediato afastamento dos policiais envolvidos e rigorosa investigação sobre as circunstâncias da morte e da conduta dos PMs. “Pelas imagens, consideramos uma ação ultrajante porque o policial desfere o cassetete sobre uma pessoa conduzindo uma moto sem nenhuma necessidade. É um absurdo, é repugnante e revoltante porque essa vida poderia ter sido preservada”, criticou.

O coordenador do Núcleo de Ações Emergenciais e de Defesa de Direitos dos Ameaçados da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP Arnobio Rocha disse que assim que soube do protesto e do vídeo, encaminhou o material ao secretário de Segurança Pública general João Camilo Pires de Campos e ao ouvidor das Polícias Elizeu Lopes. “Nós não podemos fazer uma condenação prévia, mas não há razão para que o policial jogasse o cassetete para parar a moto, não existe previsão para isso”, declarou. O núcleo fez um acompanhamento do ato para diminuir o atrito entre as forças policiais e os manifestantes.

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Ele destaca como “preocupante” duas ocorrências policiais que causaram mortes em menos de uma semana em regiões próximas, citando o caso do tatuador Gilberto Amancio de Lima, 30, morto com seis tiros por policiais civis na Favela da Felicidade, no Jardim São Luís, na zona sul da capital, na sexta-feira (14/5), e que também culminou com protesto dos moradores. “São mortes muito preocupantes que aconteceram em eventos policiais que se agravam ainda mais nesse contexto de pandemia”, pontua. “O que nós exigimos é que a polícia não atue de forma diferente na periferia e nos Jardins [bairro rico de SP] porque essas ocorrências não aparecem em bairros de elite”, critica.

Sobre o caso de Gilberto, o ouvidor também destacou que é preciso preservar vidas ainda mais em situação de alastramento do coronavírus. “Nós tivemos uma determinação do STF sobre a proibição das operações policiais no Rio de Janeiro, será que não é o que caso de se ver aqui [em SP] uma maneira da polícia agir com mais inteligência, ser mais cirúrgico, preservando a vida dessas pessoas e dos próprios policiais?”, questiona.

O que diz a polícia

Em nota, a secretaria de Segurança Pública disse que o caso é investigado por meio de inquérito policial, os policiais foram afastados das ruas e que a PM e a Corregedoria da corporação apuram o ocorrido.

Sobre o protesto, informou que “o Corpo de Bombeiros esteve no local e controlou as chamas. Ninguém ficou ferido. A ocorrência foi encaminhada ao 47º DP para as providências de Polícia Judiciária”.

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