Aliados a falso delegado, PMs são presos após atirar em acusado de pirâmide de bitcoin

Soldados Claudemir Alves e Ricardo da Mota estavam com homem que denuncia que sofreu golpe e se passou por delegado para capturar empresário em Atibaia (SP)

BMW cinza de Eneas Tomaz foi atingido por tiros que teriam sido efetuados por dois PMs | Foto: arquivo pessoal

Os soldados Claudemir Bomfim Alves, 37, e Ricardo Botelho da Mota, 29, foram presos junto com dois homens por dispararem contra o carro do empresário Eneas de Lima Tomaz, 35, acusado de pirâmide financeira e procurado desde outubro de 2020, quando foi aberto um mandado de prisão contra ele. A prisão dos cinco aconteceu no domingo (8/8), em Atibaia, cidade do interior paulista.

De acordo com o boletim de ocorrência, o grupo foi detido em flagrante pelos policiais militares rodoviários Rangel Gomes e Alessandro Rizzardi. Os dois disseram que foram informados que um funcionário do Hotel Tauá solicitando auxílio porque na porta estaria um veículo Toyota Filder sem nenhuma caracterização de viatura cujos ocupantes se identificaram como policiais e que queriam entrar no estabelecimento para prender um hóspede.

Ao chegarem no hotel, Gomes e Rizzardi afirmam que ficaram sabendo que o hóspede tinha saído do local em uma BMW e que foi seguido por dois carros: o Toyota Filder e um Ônix branco, os quais estavam fazendo disparos contra a BMW, percorrendo uma estrada vicinal (sem asfalto).

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A dupla conta que avistou a BMW próximo à Rodovia D. Pedro I, para dentro de uma propriedade rural, da qual desceu Eneas dizendo que estavam tentando matá-lo e que estavam armados, apontando para um homem que se aproximava, que seria Claudemir, que estava à paisana e portava uma pistola .40, de uso exclusivo das forças de segurança pública. Segundo os policiais rodoviários, a arma estava quente, sinal de que tinha sido usada recentemente. O empresário confirmou que tinha um mandado de prisão aberto com ele por crime financeiro.

Em seguida, chegou Felipe de Souza Torresi, 26, que teria se identificado como delegado de polícia. Os policiais disseram que, ao solicitarem a carteira funcional de identificação, Torresi apresentou uma carteira de “delegado federal dos direitos humanos”, que tentava interceder e dizia que estava investigando o caso. O soldado Ricardo Botelho da Mota, que também se aproximou, foi detido com uma pistola Glock da corporação e um revólver particular, assim como outro homem, Felipe Alves de Jesus, 26.

De acordo com o registro, Torresi e os dois PMs estariam no Toyota Filder enquanto Alves de Jesus dirigia o Ônix, que estava com marcas de colisão próximos ao local onde o outro veículo estava.

Torresi disse, na Delegacia de Plantão de Atibaia, que foi vítima de golpe financeiro praticado por Eneas e que teria visto no Instagram que ele se hospedaria naquele hotel, tendo combinado com Alves de Jesus para se hospedar no estabelecimento para monitorá-lo.

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Eneas disse, segundo o boletim de ocorrência, que percebeu estar sendo monitorado e fotografado e que, por isso, decidiu deixar o hotel e encontrar a família em um restaurante próximo à rodovia, mas foi seguido pelos dois veículos e que teriam sido disparados mais de 22 tiros em direção a ele, mas acabou não sendo atingido porque sua BMW é blindada.

Ainda foram apreendidos dois espargidores, sendo um da corporação, e munições lacrimogêneas, elastômeros e carregadores para pistola .40 com Claudemir; carregadores de pistola .40, que pertencem à PM paulista, e um revólver calibre 38 com Ricardo. Celulares dos cinco, além de um notebook de Eneas também foram recolhidos.

O delegado Sebastião Alves de Oliveira indiciou os quatro por tentativa de homicídio e falsa identidade. Já sobre Eneas, foi cumprido o mandado de prisão, e encaminhado, junto com Torresi e Alves de Jesus, à Cadeia Pública de Piracaia, no município vizinho. Os soldados foram levados ao Presídio Militar Romão Gomes, na capital. Os veículos foram periciados e encaminhados ao pátio municipal.

Pirâmide financeira

Em outubro de 2020, o Tribunal de Justiça de São Paulo acolheu a denúncia e o pedido de prisão preventiva da 5ª Promotoria de Barueri contra Eneas e outros três homens acusados de de crimes contra a economia popular, induzir o consumidor ou usuário a erro e organização criminosa*. Ao menos 10 pessoas, incluindo Felipe Torresi, denunciaram à delegacia da cidade que Eneas e outro empresário se apresentavam, em fevereiro de 2019, como sócios de uma empresa denomina Arbcrypto, que seria especializada em investimentos e captação de recursos de operações com criptomoedas a qual geraria, por meio do site, uma conta bancária em dólar para o investidor em um “escritório virtual”. A promessa, segundo eles, seria de uma rentabilidade de até 2,5% e os recursos deveriam ser depositados em contas bancárias da empresa Rickinvest.

Além disso, denunciam que eram ofertados prêmios, como carros, que nunca eram entregues, caso os clientes convidassem novas pessoas para participar. Um dos empresários acusados seria responsável pela transação. Desde agosto daquele ano, as vítimas afirmam que não receberam os valores prometidos e que tinham indícios de ser um esquema de pirâmide financeira, um esquema fraudulento em que a pessoa paga uma taxa e tem que convidar novas pessoas para participar a fim de obter ganhos.

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À Polícia Civil, um desenvolvedor da plataforma do site da empresa disse que foram cadastradas 50 mil pessoas, com faturamento superior a 10 milhões de dólares. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e quebra de sigilo bancário dos acusados. O processo segue em segredo de justiça.

Eneas e outro empresário também respondem a processo por situação parecida na Comarca de Ribeirão Preto.

A reportagem tentou contato com os advogados Heraclito Antonio Mossin, Paulo Martins Cason e Julio Cesar de Oliveira Guimarães Mossin, que aparecem como representantes de Eneas em pedidos de habeas corpus, por telefone disponível no cadastro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e e-mail do escritório de advocacia que atuam, mas não tivemos resposta.

Ajude a Ponte!

Procuramos o escritório que aparece representando Felipe Terrosi no processo de Eneas, mas também não houve retorno. Não localizamos defensores de Felipe Alves de Jesus.

O que diz a polícia

A Ponte procurou as assessorias da Secretaria de Segurança Pública e da Polícia Militar a respeito do caso e aguarda uma resposta

ERRATA: a reportagem havia colocado que Eneas foi acusado de estelionato. Na verdade, ele foi denunciado por crimes contra a economia popular, induzir o consumidor ou usuário a erro e organização criminosa. O texto foi corrigido às 14h34, de 17/8/2021.

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ERRATA: a reportagem havia colocado que Eneas foi acusado de estelionato. Na verdade, ele foi denunciado por crimes contra a economia popular, induzir o consumidor ou usuário a erro e organização criminosa. O texto foi corrigido às 14h34, de 17/8/2021. 

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