Ataque em Araçatuba expõe falhas do modelo ‘estilo Rota’ de Doria no interior de SP

Mesmo com aumento de batalhões especiais da PM, de 5 para 14, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que roubos a banco do ‘novo cangaço’ poderiam ser impedidos se houvesse estrutura investigativa

Rodovia Marechal Rondon foi bloqueada com carro em chamas por quadrilha na madrugada de segunda-feira (30/8) | Foto: Reprodução / Redes sociais

As imagens de dois reféns em cima do teto e do capô de um carro branco de uma quadrilha que percorria a cidade de Araçatuba, no interior de São Paulo, causaram choque e indignação. Cerca de 20 pessoas teriam participado de roubos a bancos durante a madrugada de segunda-feira (30/8) no município, espalhando explosivos e fazendo barricadas com carros em chamas. Pelo menos três pessoas morreram durante a ação. O modus operandi, no entanto, não é novo.

Cidades do interior paulista têm registrado ataques parecidos contra bancos, que são rápidos, violentos, com grande emprego de assaltantes com armas de grosso calibre e uso de reféns: Mococa, em abril deste ano, Araraquara, em dezembro de 2020, Botucatu, em julho de 2020, Ourinhos, em maio de 2020, dentre outros. O mais violento foi uma tentativa frustrada que ocorreu em Guararema, em abril de 2019, quando 11 foram mortos em operação da Rota (Rondas Ostentivas Tobias de Aguiar), cuja atuação foi elogiada pelo governador João Doria (PSDB).

O analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Guaracy Mingardi explica que essa atuação começou em estados do Nordeste e foi popularmente apelidada de “novo cangaço” por ser semelhante às investidas de grupos que sitiavam cidades para realizarem roubos portando armas pesadas, como o bando de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. “Isso veio para o Sul, Sudeste há pelo menos cinco anos, mas [os grupos] não tomam as cidades porque são de porte médio, não tem como ocupar toda a cidade, então o que eles fazem é atirar e cercar o local com carros roubados ou jogam estrepe no chão para furar os pneus das viaturas, atacam a companhia da PM mais próxima”, afirma. “A diferença do ‘novo cangaço’ que acontecia em cidades pequenas é essa: como não podem ocupar toda a cidade, usam de mais violência ainda”.

A pesquisadora do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC) Jânia Perla Diógenes Aquino, que estuda esses tipos de ações, publicou um artigo no ano passado apontando que essa expressão, apesar de ter surgido em cidades do Nordeste, já que esses ataques começaram a proliferar por volta dos anos 2000, seria inadequada por comportar e misturar técnicas e ensinamentos de lugares difusos. O uso de reféns como escudo humano, como visto em Araçatuba, já foi utilizado em Borrazópolis, no interior do Paraná, em 2015, e seria uma tática que se desenvolveu no Sul do país. Há também a questão do tráfico de armas, que auxilia essas operações, e a aquisição de explosivos.

De acordo com Guaracy, a estratégia desses grupos é atuar em locais com bastante dinheiro e pouco policiamento. “No começo, esses grupos atacavam transportadoras de dinheiro porque tinham muito mais dinheiro do que qualquer banco, mas não sei se melhoraram a segurança ou deixam menos dinheiro [nas transportadoras], agora não temos visto muitos ataques a transportadoras e sim a bancos”, pontua. “Essas ações que vão direto para os bancos são mais recentes em São Paulo, tem dois ou três anos no máximo.”

No caso de Araçatuba, o governo do estado moveu atuação dos Baeps (Batalhões de Ações Especiais de Polícia) de Bauru, Presidente Prudente e São José do Rio Preto, PMs do COE (Comando e Operações Policiais) e Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais), além de policiais civis da 5ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Furtos e Roubos a Bancos, do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) da capital em apoio do Deic de Araçatuba. O especialista aponta que o ponto-chave para coibir esses ataques é o investimento em inteligência. “Em uma cidade como Araçatuba, num horário complicado, vai demorar para a Polícia Militar sair de uma extremidade e chegar à outra”, pontua. “A questão não é o policiamento preventivo, que vai atuar antes ou na hora, é a investigação porque quando a polícia se volta para um tipo de crime, ela consegue se aprimorar para chegar nos criminosos e vai ser mais difícil de ocorrer crimes, o custo-benefício muda”.

No interior paulista, a principal bandeira do governo Doria tem sido a ampliação dos Baeps. Até 2018, eram cinco. Agora, são 14 batalhões, treinados pela Rota. No texto de divulgação do governo paulista, quando a corporação tinha chegado a 11 dessas unidades, o destaque é de que os Baeps atuam em operações de alto risco, com patrulhamento tático, negociação de reféns, gerenciamento de crise e busca e localização de explosivos. A própria cidade de Araçatuba tem um batalhão desse cuja inauguração aconteceu em agosto do ano passado.

Ilustração: Antonio Junião / Ponte Jornalismo

Os Baeps surgiram em 2014 durante o governo de Geraldo Alckmin (PSDB), antecessor de Doria. Em sua origem, o batalhão surgiu para atuar em operações especiais de policiamento ostensivo e de “preservação da ordem pública”, como reintegrações de posse e manifestações de rua, abrangendo operações de “distúrbios civis e de antiterrorismo”. Com a ampliação a partir de 2019, especialistas mostravam preocupação com o aumento da letalidade. Um deles é o do coronel aposentado da PM e ex-secretário nacional de Segurança Pública José Vicente da Silva Filho. Ele deixou a campanha após o tucano anunciar que pretendia aumentar de 5 para 22 o número de batalhões “como os da Rota” no estado.

“Quantos policiais dessa unidade especial poderiam estar na rua naquele horário? Os ladrões estavam em 30 e bem armados, não iria dar certo e poderia ser pior, poderia morrer mais gente ainda”, avalia Guaracy Mingardi. “O Deic tem mais capacidade de investigar esse tipo de crime do que uma delegacia local porque, normalmente, os ‘cabeças’ [líderes] vêm de fora, geralmente são pessoas do PCC porque tem bons relacionamentos e consegue armamentos pesados, então é bem provável que não seja gente da cidade, afinal, por que vão atacar em um local em que podem ser facilmente reconhecidos?”, questiona o analista criminal.

Infográfico: Antonio Junião / Ponte Jornalismo

O presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Renato Sérgio de Lima entende, no entanto, que o ataque a Araçatuba foi “uma surpresa” porque a cidade teria estrutura policial. “Araçatuba é uma região que concentra muitos presídios, como Presidente Bernardes, Presidente Prudente, todo o oeste de São Paulo, então são municípios que têm estruturas policiais, com Baeps, e isso chamou muita atenção. O ‘novo cangaço’ se caracteriza por ter uma atuação em cidades menores, com uma população menor, isso é algo novo a ser analisado e ainda é cedo para dizer o que aconteceu, mas esse modus operandi é diferente”, argumenta. Ele aponta que como um dos três mortos era integrante da quadrilha, a identificação vai auxiliar a apuração da Polícia Civil.

Para Guaracy, no entanto, os criminosos têm “se arriscado” nessas cidades de médio porte à procura de maior quantidade de dinheiro. Outra questão que ele levanta é que os governadores têm investido mais nas polícias militares. “É mais fácil usar a PM para controlar tumulto e manter a ordem, os governos estão muito mais interessados em ordem do que em segurança pública”, afirma. Para ele, é necessário reforçar o efetivo da Polícia Civil e também melhorar o uso de equipamentos pela corporação, não necessariamente apenas armamentos, mas computadores e bancos de dados adequados, por exemplo, e capacitação. “Crime não derruba governador, a não ser que seja uma situação muito escandalosa, mas tumulto, desordem, acabam com as candidaturas, por isso, apostam mais na PM enquanto a Polícia Civil está com muita falta de pessoal e muito burocratizada”.

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O Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo) havia divulgado neste mês que houve uma redução de 5% do número de profissionais da Polícia Civil de 2019 para 2020. Ao UOL, a presidente da entidade, delegada Raquel Kobashi Gallinati, disse que há uma “sobrecarga desumana” de trabalho. “Um delegado de polícia acumula a função de quatro ou cinco policiais. Também é uma situação absurda de candidatos aprovados em concurso que não estão sendo nomeados”. Pelo Twitter, sobre o ataque em Araçatuba, a delegada criticou que o governo atual “privilegia o marketing em detrimento a investimento nas polícias”.

O que diz o governo

A Ponte questionou a Secretaria de Segurança Pública sobre a investigação do caso, a atuação dos Baeps bem como o investimento nas polícias. A In Press, assessoria terceirizada da pasta, encaminhou a seguinte nota:

A Secretaria da Segurança Pública mantém buscas com 380 policiais para localizar os criminosos que atacaram duas agências bancárias na região central de Araçatuba, na madrugada desta segunda-feira (30). Unidades territoriais da PM de Araçatuba, com o apoio de equipes de Bauru, São José do Rio Preto e Presidente Prudente, além do Águia e da Polícia Civil participam das diligências. Uma equipe do GATE (Grupo de Ações Tática Especiais) está em operação no município para o desmantelamento de 16 explosivos em pontos diferentes – 12 já foram desmantelados. Até o momento, foram registradas três mortes e outras seis pessoas ficaram feridas. A ocorrência será registrada e investigada pela Polícia Federal. 

O Estado de São Paulo tem registrado quedas consistentes tanto nos casos de roubo a banco quanto nos casos de explosões de caixas eletrônicos, ao longo dos últimos 10 anos. O primeiro registrou uma redução de 92,18% e o segundo 98%, respectivamente. (jan-jul). Somente nos primeiros sete meses deste ano, 46 criminosos envolvidos com a prática de roubo a banco foram presos no Estado. Um aumento de 142% em relação ao mesmo período do ano passado. Importante destacar ainda que os casos dos roubos a banco a Ourinhos e Botucatu foram esclarecidos e boa parte dessas quadrilhas já está presa.

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