Dois PMs estavam no carro usado no assassinato de Marielle e Anderson, diz jornal

Segundo O Globo, testemunha afirmou que um deles faria parte do 16º BPM e o outro teria trabalhado na Maré; polícia quer saber agora de onde veio a submetralhadora utilizada no crime

Porta traseira do carro de Marielle | Foto: divulgação

Pelo menos dois PMs participaram efetivamente da execução de Marielle Franco e Anderson Gomes, no dia 14 de março, segundo reportagem do Jornal O Globo. Um seria lotado no 16º BPM (Olaria) e outro seria um ex-PM do batalhão da Maré, o 22°BPM. A informação veio da mesma testemunha que já havia citado o envolvimento do vereador Marcello Siciliano e do ex-PM Orlando Araújo, que cumpre pena por ter atuado na milícia de Curicica, zona oeste do Rio, no crime. O denunciante está sob proteção da CORE (Coordenadoria de Recursos da Polícia Civil) e afirmou, em depoimento, que ouviu Siciliano e Araújo tramando a morte de Marielle. A Polícia Civil do Rio agora colocou como prioridade saber de onde veio a submetralhadora HK-MP5 9mm utilizada no crime.

Duas pessoas ligadas ao setor de investigações fluminense ouvidas pela Ponte afirmaram que esse tipo de arma, de origem restrita das forças armadas e policiais, não é de uso comum e mesmo o crime já teria “aposentado” o modelo. “O uso de tal armamento determina um poder de fogo maior na ação pela, porque a precisão dos tiros aumenta. Em um segundo, este modelo de submetralhadora é capaz de disparar exatos 13 tiros e com menor recuo da arma – 800 disparos por minuto. Quanto menor o recuo, menos espaçados serão os alvos atingidos. Isso é possível pela submetralhadora ter três bases de sustentação (duas para as mãos, e uma no ombro), enquanto a pistola tem apenas uma (o punho do atirador)”, disse à Ponte uma das fontes. 

O relatório final da CPI do tráfico de armas de 2006 apontava para esse cenários. Dentre as armas rastreadas e vendidas para criminosos no Rio de Janeiro, a maioria é de cano curto (revólveres – 52% – e pistolas – 42%). As submetralhadoras correspondem a apenas 0,05% – ou cinco unidades – das mais de 10 mil apreensões feitas naquele período estudado na comissão – entre 1998 e 2003.

Nesta quinta-feira, o ex-PM Orlando Araújo escreveu uma carta negando as acusações, afirmando não ter qualquer relação com o vereador e tentando desqualificar a denúncia, coloca o nome completo de quem ele acredita ser a testemunha. A Ponte teve acesso a íntegra da carta. “O policial em questão não tem qualquer credibilidade, haja visto que chefia as milícias do Morro do Banco [Curicica] junto ao tráfico de drogas”, escreve. E no final diz que espera “que a D.H apure o fato rapidamente e que não acredite nessa versão armada e direcionada”. Araújo está preso acusado de ser o mandante de uma execução semelhante a de Anderson e Marielle, contra Wagner Raphael de Souza, em 2015. A vítima era presidente da escola de samba União do Parque Curicica. Segundo relatório do Ministério Público, “o crime foi cometido por motivo torpe, já que a razão foi o fato da vítima Wagner ter alugado um terreno para um circo sem pedir a autorização do denunciado Orlando Oliveira de Araújo, miliciano conhecido na região”. 

Foto: reprodução carta de Orlando Araújo

Siciliano diz que ficou “chateado”

Em entrevista coletiva realizada na quarta-feira (9/5), o vereador Marcello Siciliano disse ser um factóide a denúncia publicada pelo Jornal O Globo. Para o vereador, sua relação com Marielle era boa, não haveria motivos para criar mentiras sobre sua pessoa e que está “chateado” com tudo o que está acontecendo. “Agora mais do que nunca faço questão de que esse crime seja esclarecido mais rápido que nunca. Estou sendo massacrado nas redes sociais por algo que foi supostamente dito por uma pessoa que a gente nem sabe a credibilidade que tem”, disse.

Questionado sobre sua relação com a milícia na região de Vargem Grande e Vargem Pequena, Siciliano disse que é totalmente contra qualquer tipo de poder paralelo e que nunca foi interpelado por criminosos da região. “Milícia, tráfico, é problema de polícia, não de política”.

O assassinato de um assessor de Siciliano também foi questionado na coletiva. O crime, ocorrido dois dias após o depoimento do vereador na Divisão de Homicídios sobre o caso Marielle, levantou suspeitas sobre “queima de arquivo”. Segundo policiais militares, testemunhas relataram que os criminosos disseram “chega para lá que a gente tem que calar a boca dele” antes de atirar na cabeça do colaborador de Siciliano. O crime aconteceu por volta das 20h45 e seu corpo foi encontrado dentro de um carro.

Siciliano declarou por meio de nota que recebeu com “grande pesar” a notícia da morte de Carlos. “Durante o tempo em que esteve conosco, fez tudo pela sua localidade e estava sempre disponível para ajudar no que fosse necessário”, afirmou. O colaborador atuava com o parlamentar desde o dia 3 de abril.

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