Mortes de líderes do PCC geraram insatisfação das ruas com Marcola

    Segundo MP, reação se deve aos assassinatos de Gegê do Mangue e Paca, feitos a mando ou com mandantes perdoados pelo chefe da facção

    Marco Camacho, o Marcola, apontado pelo MP como líder da facção | Foto: Reprodução

    Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, eram líderes da facção criminosa paulista PCC (Primeiro Comando da Capital). Organizavam o tráfico de drogas no Ceará para uma rota internacional, de origem em países da América do Sul rumo à Europa. Uma emboscada de helicóptero no dia 15 de fevereiro terminou com o assassinato de ambos, ação que até o momento gera insatisfação das ruas com Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelo MP (Ministério Público) como chefe da facção.

    Segundo investigações do órgão, duas hipóteses são cogitadas para as mortes de Gegê e Paca: Marcola teria ordenado as execuções ou, então, outros membros teriam feito e, apesar de identificados pelo líder do grupo, acabaram perdoados. Confirmada qualquer uma delas, há insatisfação dos membros abaixo dele.

    Um dos possíveis motivos para o crime é Gegê estar envolvido em outra morte, a de Edílson Borges Nogueira, o Birosca, durante banho de sol na P2 de Presidente Venceslau, no dia 5 de dezembro de 2017. Cogita-se que o líder estaria de olho em pontos de droga sob comando de Birosca, que não era membro da facção, mas detinha respeito dos presos. Marcola, que também o respeitava, estava no RDD ((Regime Disciplinar Diferenciado) da P2 de Venceslau nesta época.

    Como comandante do grupo, o MP aponta que Marcola deveria saber tanto da morte de Birosca quanto as de Gegê e Paca. A possibilidade da primeira execução ter acontecido sem o seu aval surge como condição para o órgão cogitar que ele foi quem decretou o fim da linha para os dois líderes. Investigadores apontam que Marcos Camacho nega a autoria.

    Outra possibilidade é de que a dupla estivesse desviando dinheiro do caixa do PCC. Eles moravam em casas de luxo em Fortaleza, capital do Ceará, e ostentavam quatro carros avaliados em R$ 2 milhões: duas BMW modelo X6 (cada uma custa em torno de R$ 500 mil) e duas Land Rover (R$ 600 mil cada uma). Nesta hipótese, as mortes teriam sido a mando de Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, espécie de braço direito de Marcola.

    De acordo com as apurações, nenhum elemento que comprove os desvios foi apresentado pelos líderes aos demais membros, explicação comum nestes casos. Após as mortes, membros que participaram das execuções de Gegê e Paca também foram mortos após “salve” (recado geral dos líderes aos demais membros) decretando as suas caçadas.

    Um destes casos é o de Wagner Ferreira da Silva, chamado de Waguininho ou Cabelo Duro, fuzilado na porta de um hotel no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Waguininho estava no helicóptero com o piloto Felipe Ramos Morais, preso em 15 de maio, e executou os dois membros da facção.

    Para o MP, o fato de os presos não rezarem o Pai Nosso e o tradicional grito de guerra da organização (“PCC, 1533, PCC, 1533. Um por todos e todos por um. Um por todos e todos por um”) no banho de sol era um indicativo de que a ordem havia partido da facção. Não havia luto nas penitenciárias após as mortes de Gegê e Paca.

    Gegê do Mangue morreu executado, junto de Paca, próximo a Fortaleza (CE) em fevereiro | Foto: Divulgação

    Um bilhete interceptado na P2 de Venceslau apontou que o próprio PCC decretou as mortes dos seus líderes. Fuminho era posto como mandante e Cabelo Duro, quem agiu. Em um primeiro momento, todos tiveram seus bens tomados, como armas e biqueiras. Porém, tempos depois Marcola decidiu por perdoá-los e devolver tudo.

    “Existe insatisfação nas ruas questionando o Marcola”, garante um investigador do MP, sob condição de anonimato. “Pela proximidade dele com o Fuminho, é praticamente impossível não saber se ele mandou matar os líderes. E o Marcola chegou a dizer que, se não estivesse no RDD, o Birosca não teria morrido”, continua.

    Comando temporário

    Na semana passada, o MP denunciou 75 pessoas por relações com o PCC. Destes, 30 eram pessoas presas que repassavam às ordens de 19 presídios diferentes em 9 estados para todo o país. Ficou comprovado pelo órgão que, mesmo com os líderes isolados, a facção se manteve operante e expandiu sua atuação.

    Dos denunciados, oito assumiram o comando temporário da Sintonia Final, denominação para a cúpula da organização, e da Sintonia dos Estados e Países, que cuidam das ações fora de São Paulo. Todos estavam presos no raio 1 da P2 de Presidente Venceslau, determinando envio de armas, a morte de agentes públicos, batismo de novos membros e o tráfico de drogas.

    Os bilhetes interceptados pelo MP apontam que o Comando tem aumentado sua violência na guerra travada com outras facções, a principal delas o CV (Comando Vermelho), de origem no Rio de Janeiro, mas dominante em estados do Norte e Nordeste. Além deles, o PCC foca em obter o comando do tráfico em Santa Catarina para controlar o porto de Itajaí, de onde enviaria drogas à Europa. Contudo, enfrenta resistência da facção local PGC (Primeiro Grupo Catarinense).

    Birosca foi executado durante banho de sol em dezembro de 2017 | Foto: Reprodução

    Esta espécie de segundo escalão assumiu o controle temporariamente e, quando os líderes de fato deixaram o isolamento, em dezembro de 2017, entregaram os postos e voltaram à suas funções.

    A Operação Echelon, deflagrada na semana passada com a denúncia dos envolvidos, não apresenta a atual dinâmica no comando do PCC após as execuções de Birosca, em dezembro, e de Gegê do Mangue e Paca, em fevereiro. Segundo investigadores, outras apurações estão em andamento, a serem concluídas.

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