Guararema comemora ação da PM de SP que terminou com 11 mortos

Terceira ação mais letal na história da PM paulista virou assunto na cidade; em coletiva de imprensa, diretor-executivo da PM afirmou que ação se preocupou com vidas

Uma das agências bancárias atacadas | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Guararema viveu um dia atípico para um município de 28 mil habitantes na região da Grande São Paulo. A ação da Rota, tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, e COE (Comandos e Operações Especiais), a elite do Batalhão de Choque da PM, com 11 pessoas mortas era assunto da ida ao mercado até a missa da noite. De uma forma geral, a população aprovou o que chamaram de “trabalho da polícia”.

“Eles estavam num lugar sem saída e deram de frente com a Rota. Você sabe, a Rota não perdoa”, disse a padeira de um supermercado em conversa com seu cliente. “Está certo, tem que atirar mesmo. Vão esperar os caras de fuzil pra tentar a sorte?”, declarou um morador no entorno da delegacia de polícia da cidade.

A agência do Banco do Brasil que seria roubada é vizinha de parede do prédio da Polícia Civil. Nele havia apenas um escrivão, pois no período noturno o quadro de agentes é escasso. Os agentes explicaram que ele atirou e, como não sabiam a quantidade de policiais, os homens fugiram.

“Parabéns, fizeram um grande trabalho”, disse um homem que esteve na delegacia, ao se despedir dos agentes. A mesma mensagem foi passada por quem estava na praça da Igreja Matriz da cidade. Ao verem viaturas rondando em busca dos suspeitos que fugiram, as conversas eram exaltando a PM.

Durante a tarde, a televisão do distrito policial estava sintonizada no programa Brasil Urgente, no qual apareceu uma entrevista do governador João Doria (PSDB), avisando que os integrantes da ação seriam condecorados no dia 10 de abril. Os homens da Rota acompanhavam atentamente a declaração, se entreolhando com orgulho.

No início da tarde, apenas um homem havia sido preso, suspeito de participar da tentativa de roubo. Outros dois foram capturados em região de mata pelos policiais, através de denuncia anônima. A Polícia Civil apreendeu 8 fuzis, 4 pistolas, 2 calibres 12 e 37 kg de explosivos com o grupo.

Eles teriam usado dois carros blindados e mais três sem blindagem. Segundo a policia, eles teriam atirado de dentro dos veículos blindados em direção aos policiais, que revidaram. Ao acertarem os mesmos pontos mais de uma vez, os PMs furaram a blindagem e mataram os homens.

“Eram 2h da madrugada e a gente acordou com o barulho, um tiroteio que durou meia hora. Era muito alto”, conta Fabio Biancardi, 52 anos, dono de uma loja de móveis. Ele preferiu não se posicionar sobre a ação em si da PM, se achou positiva ou negativa.

‘Proteger o cidadão’, diz diretor da PM

O diretor-executivo da PM paulista, Coronel Álvaro Camilo, afirmou, nesta quinta-feira (4/4), que ação com 11 mortos em Guararema, interior de São Paulo, teve como preocupação a vida das pessoas. “A ação toda foi com preocupação na defesa do cidadão. Queríamos prender os criminosos. A ideia não era confrontar. Prendemos dois”, declarou em coletiva de imprensa na sede da SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo).

“Essa forma de trabalhar pretende dar uma resposta a qualquer evento criminosos que venha a acontecer, seja uma simples ocorrência de furto no centro de São Paulo, seja uma ocorrência grande como essa que aconteceu em Guararema. O objetivo é proteger as pessoas”, frisou.

Pelo menos 25 suspeitos participaram da ação, 11 foram mortos, segundo a polícia, em decorrência de tiroteio, e duas pessoas até o momento estão presas. Segundo a polícia, o grupo havia realizado uma ação semelhante na cidade de Sorocaba e o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MP-SP (Ministério Público de São Paulo) passou a monitorar os suspeitos com escutas telefônicas e acionou a Rota para a realização da operação.

O tenente-coronel Mário Alves da Silva, comandante da Rota, explicou que a informação não deixava claro o local onde os criminosos poderiam estar, o policiamento foi reforçado em toda a região. “Quando houve a explosão, com troca de tiros, a Rota foi para lá. Estavam preparados para guerra, com armamentos, muita munição, carregadores, carro blindado. Não tinham a intenção de se entregar e a partir disso é que agimos”, declarou.

Explosivos que seriam usados para explodir caixas eletrônicos e cofres de banco | Foto: Divulgação/SSP

Essa foi a 3ª ação oficial mais letal da PM paulista. Confira abaixo as outras 4 ações em que o resultado morte foi alto:

  • 111 mortos (Massacre do Carandiru) – 2/10/1992 – Durante uma rebelião sem reféns, a PM invadiu o Pavilhão 9 da Casa de Detenção, no Complexo do Carandiru, na zona norte da cidade de São Paulo, e mata 111 presos. O comandante da ação, coronel Ubiratan Guimarães, foi absolvido. Outros 74 PMs foram condenados, mas a Justiça anulou o julgamento e determinou novo júri.
  • 12 mortos (Castelinho) – 5/3/2002 – Policiais militares mataram 12 integrantes do PCC na Rodovia Senador José Ermírio de Moraes, a Castelinho, em 5 de março de 2002. Convencidos pela polícia a roubar um avião pagador em Sorocaba (SP) que nunca existiu, os criminosos foram atraídos para uma emboscada. Em 2014, a justiça absolveu 50 policiais e dois detentos acusados pelo massacre.
  • 11 mortos (Guararema) – 4/4/2019 – Após receberem informações de um grampo telefônico realizado em Sorocaba (SP), policiais militares matam 11 homens em Guararema, na Grande SP.
  • 9 mortos (Várzea Paulista) – 12/9/2012 – PM invade uma chácara em Várzea Paulista e mata nove pessoas que estariam participando de um “tribunal do crime” organizado pelo PCC para julgar um suspeito de estupro. Entre os mortos, estava a vítima do “tribunal”. Na época, o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que “quem não reagiu está vivo”.

Em setembro 2017, dessa vez por parte da Polícia Civil, uma operação contra quadrilha de assalto a condomínio no Morumbi, bairro rico da zona sul de São Paulo, foi surpreendida e dez pessoas foram mortas. Nenhum policial ficou ferido na ação e moradores da região elogiaram e homenagearam os policiais.

Mudanças na forma de agir?

Na gestão do ex-secretário de Segurança Pública de SP, Antônio Ferreira Pinto, entre 2009 e 2012, casos como o de Guararema, baseado em escutas telefônicas, com colaboração do MP, eram comuns. Em em agosto de 2011, uma ação da Rota em um supermercado em Parada de Taipas, na zona norte, deixou 6 mortos. A alegação da PM é que era uma quadrilha que iria explodir caixas eletrônicos e que recebeu o aviso em ligação anônima. Em maio de 2012, policiais da Rota mataram também 6 pessoas em um Lava-Rápido na Penha, zona leste de São Paulo. Uma testemunha afirmou que vítima foi morta pelos policiais já rendida. A tese de confronto foi usada mais uma vez, assim como em Guararema e nos outros casos litados. O caso de Várzea Paulista aconteceu também sob a gestão de Ferreira Pinto.

Quando Fernando Grella assumiu a SSP no final de 2012, algumas medidas no sentido de diminuir a letalidade policial foram adotadas. A principal foi a Resolução nº 5, de 8 de janeiro de 2013, que proibiu policiais de resgatarem baleados em supostos confrontos, para evitar as práticas de executar feridos a caminho do hospital ou de “socorrer” cadáveres ao pronto-socorro apenas para prejudicar a perícia.

O coronel Álvaro Camilo foi questionado, na coletiva de imprensa, se a forma de agir da polícia, depois de quase sete anos, mudou, mas ele negou. “Não mudou a forma de agir da polícia. Continua a mesma. A questão é que a gente não quer deixar o crime crescer mais. De maneira nenhuma”, pontuou e defendeu a transparência de todas as pastas da segurança pública. “Estamos aqui prestando esclarecimentos justamente porque queremos informar a população”.

Quando questionado se algum policial ficou ferido, levando em conta a tese de troca de tiros, Coronel Camilo afirmou que não e atribuiu o fato ao ótimo treinamento da corporação. “Nós temos um preparo muito grande para que isso não aconteça. Ele age seguindo o método Giraldi [método de preservação da vida pelo qual a PM paulista é treinada e que aponta o disparo como último recurso]“, afirmou. “A ideia é dar uma contra reposta. A polícia age tecnicamente e acaba levando a melhor. A polícia foi preparada para o enfrentamento que previu que ia ter. Os que se entregaram estão vivos. Em São Paulo, não é uma boa ideia enfrentar a polícia”, concluiu o diretor da PM.

O governador de São Paulo, João Doria, em entrevista à Rádio Bandeirantes, falou que “dez bandidos foram para o cemitério” e que pretende homenagear os policiais e, mais tarde, em sua conta no Twitter, afirmou que “quem tem que ter vergonha é o bandido. Os policiais civis e militares são heróis que saem todos os dias de casa para defender vidas e o nosso patrimônio”.

Durante a tarde, foi a vez de o presidente Jair Bolsonaro parabenizar os policiais da Rota pelo ocorrido em sua conta no Twitter afirmando que “11 bandidos foram mortos e nenhum inocente saiu ferido. Bom trabalho!”. Confira:

 

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