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Padre Júlio Lancellotti: ‘Quando um morador de rua morre, tentam culpá-lo. Mas ele é vítima’

10/01/20 por Maria Teresa Cruz

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Em missa de 7º dia de Carlos Roberto, morto após ser atacado com fogo, religioso e entidades voltam a questionar investigação e pedem acolhimento ao povo de rua

Padre Júlio Lancellotti chamou os moradores de rua presentes na igreja para ocupar o altar | Foto: Maria Teresa cruz/Ponte Jornalismo

A missa das 12h na Catedral Metropolitana da Sé, no centro de São Paulo, é bastante tradicional durante a semana. Muitos aproveitam o horário de almoço para fazer a sua prece. Nesta sexta-feira (10/1), no entanto, uma intenção tomou conta dos presentes: a memória de Carlos Roberto Vieira da Silva, 39 anos, morador de rua morto após ser queimado no último domingo (5/1). Outro morador de rua, Kaique Moraes da Silva, 22 anos, morto eletrocutado durante o temporal da madrugada da quinta-feira (9/1) também foi lembrado e homenageado.

Durante a homilia, padre Júlio Lancellotti, da Pastoral de Rua da Arquidiocese de São Paulo, que presidia a cerimônia, usou como gancho o texto do Apóstolo Lucas, que fala sobre o leproso que Jesus curou, para falar da população de rua. “Em dez dias de 2020, 5 pessoas em situação de rua morreram ou foram assassinadas na nossa cidade. A gente reza pelos nossos que se foram, mas não podemos deixar de rezar pelos mais fracos, os mais pobres, os abandonados, os esquecidos. A leitura do Evangelho parece ter sido escolhida a dedo para esse dia, porque fala de um leproso, que no tempo de Jesus, era quase que uma pessoa amaldiçoada, castigada, que não podia ficar dentro da cidade, conviver com os outros. Jesus toca nessa pessoa, coisa que não era permitida. Jesus não respeita a regra, a norma e toca no leproso e tira dele o sofrimento. O morador de rua, muitas vezes não, consegue nem um copo d’água. Quando entra em algum lugar, as pessoas o afastam, ninguém quer ouvi-lo”, critica.

Padre Júlio Lancelloti com irmão de rua | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

“O morador de rua quer encontrar alguém que o toque, que fale com ele, que partilhe com ele, que ouça o que ele tem pra dizer. Cada um que está aqui dentro dessa igreja precisa fazer um compromisso de combater tudo que é opressão, apartheid, abandono dos indefesos. Precisamos de uma cidade mais humana. Façam seu compromisso de reconhecer no pobre o seu irmão”, pontuou.

Padres Jorge Bernardes, Júlio Lancellotti e Helmo Faccioli durante missa de 7º dia em memória de Carlos Roberto | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

Na bênção, Lancellotti pediu que todos os moradores de rua tomassem à frente do altar e chamou todos a cantarem uma música que tinha um verso que dizia “fazer justiça seria para acabar com a miséria do povo que é sofredor”. Na sequência, pediu que todos ocupassem o altar.

Após a missa, um pequeno ato simbólico com algumas falas de lideranças presentes aconteceu na escadaria da Catedral da Sé. Mais uma vez, o rumo das investigações do caso foi questionado. Isso porque na quarta-feira (8/1) a Polícia Civil prendeu um outro morador de rua, de 49 anos, declarou que o suspeito teria confessado o crime e afirmado que a motivação era vingança. A vítima teria roubado R$ 10 mil do suspeito, segundo a investigação.

Padre Júlio reiterou o que já havia declarado no ato em homenagem a Carlos Roberto, realizado no local do crime nesta quinta-feira (9/1), e disse que a versão não convence. “A questão toda é que quando matam morador de rua, a culpa é sempre do morador. Só que ele é vítima. A gente tem que acompanhar esses inquéritos, essa investigação. Isso tudo ainda vai dar uma peça de teatro”, desafia.

Para Anderson Lopes Miranda, coordenador municipal do Movimento Nacional de População de Rua, é incompreensível uma pessoa que morreu ao lado de sua carrocinha ter furtado R$ 10 mil. “Essa história não convence, precisamos continuar pressionando para que a verdade apareça. E vamos lembrar do Kaique que morreu ao se encostar em um poste durante uma chuva. Uma morte absolutamente lamentável e que poderia ser qualquer um”.

Anderson Miranda, do Movimento PopRua: “Não acredito nessa versão dos fatos” | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

O vereador Eduardo Suplicy (PT), que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal, firmou, ao microfone, o compromisso com todos os presentes de pressionar a Secretaria de Segurança Pública para saber mais detalhes da investigação. “Quero me unir ao Dimitri Sales [presidente do Condepe], unir forças para dirimir totalmente a dúvida sobre como Carlos Roberto foi incendiado e assassinado. Contem comigo”, declarou.

Ninguém solta a mão de ninguém | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

Darci Costa, ex-morador de rua e hoje coordenador estadual do Movimento Nacional da População de Rua, fez uma fala sobre a autorização da violência, impulsionada pelo contexto político atual. “Vivemos um período de ódio, em que a gente vê a intolerância sendo disseminada. A gente tem que combater isso simplesmente amando o outro. Tem que correr pelo certo mas especialmente praticar o perdão. A gente precisa praticar o perdão e caminhar juntos”, afirmou.

O ex-deputado e militante dos direitos humanos Adriano Diogo analisou que o Estado não precisa matar, mas é responsável na medida que, por discursos e ausência de políticas de combate a esse tipo de violência. “Na Segunda Guerra não precisava do SS (Serviço Secreto) ou os nazis para perseguir as pessoas. Bastava mobilizar a população para isso. Milícias religiosas perseguiram judeus. O atual governo com todo o programa de armamento, arma grupos paralelos, quase um retorno dos esquadrões da morte. O pessoal da população de rua tem uma questão de dizer que é contra eles. Mas arrisco dizer que é, na verdade, contra a população pobre e marginalizada. Assim como prisões em massa, querem fazer extermínio em massa. Querem licenciar a população para matar o diferente, os mais fracos, os indefesos e a população de rua entra aí. É uma sociedade treinada para odiar”, pontua.

Monumento homenageia as 7 vítimas do massacre da Sé, ocorrido em 2004 | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

O grupo que participava do ato em frente à Catedral foi então convidado a seguir até o marco do Massacre da Sé, monumento construído em memória das sete vítimas da matança ocorrida entre 19 e 22 de agosto de 2004.

‘Assim como eu, ele foi expulso de casa’

Um dos momentos mais emocionantes do ato foi quando o morador em situação de rua André Lucas Aio, 34 anos, falou sobre Kaique Moraes da Silva, morto eletrocutado na quinta-feira. André, que é gay, afirmou que o colega de rua de quem havia se aproximado recentemente também era homossexual.

André homenageia Kaique: “Assim como eu, gay e expulso de casa” | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

“Ele era da comunidade LGBT+ também, homossexual como eu e foi expulso de casa, assim como eu. Meu pai tentou me matar e a rua foi minha única saída, assim como para Kaique. É mais um companheiro da comunidade LGBT+ que perde sua vida. Um garoto de 22 anos que tinha uma vida inteira pela frente. Então quando aqui a gente fala de políticas públicas, quero apenas dizer que para além das políticas públicas temos também que respeitar a diversidade. Não são mais só homens heterossexuais na rua. São mulheres, transexuais, homossexuais e todos merecem respeito”, declarou.

André concluiu sua manifestação lembrando da ativista do sul do país Brenda Lee, que mantinha uma casa de acolhimento para pessoas LGBT+ em situação vulnerável e que foi assassinada com três tiros na boca. “Ela estava brigando por nós quando foi assassinada. Os tiros na boca foram para calar ela. Se temos o Florescer [Centro de Acolhimento de população em situação de rua LGBT+] é por ela”, conclui sob aplausos.

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