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Suspeito de ‘forjar’ motoboy negro, PM influencer tentou intimidar família

09/09/20 por Arthur Stabile e Paulo Eduardo Dias

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Segundo advogado de André Mazzette, um vídeo feito pela irmã do jovem negro e comentário nas redes sociais comprovam ação do soldado Felipe Joaquim da Silva

PM Felipe (à esq.) prendeu André (à dir.) sob acusação de tentativa de roubo | Foto: Reprodução

O advogado do motoboy André Andrade Mezzette denuncia que a família do entregador foi intimidada pelo PM que o acusou de tentar roubá-lo. O suposto crime ocorreu no dia 28 de agosto, na zona norte da cidade de São Paulo, quando o André foi agredido pelo PM Felipe da Silva Joaquim e preso. Nesta quarta-feira (9/9), a Justiça arquivou o inquérito por falta de provas – porém, antes disso, André permaneceu cinco dias preso.

Segundo Paschoal Caruso Junior, a ação ocorreu quando os familiares de André buscavam provas na rua em que ocorreu a abordagem, mesmo local onde mora o PM (que, além do serviço na Rocam, paga de influenciador nas redes sociais).

Uma irmã do entregador estava junto de seu marido na rua Capinzal, na zona norte da capital paulista onde aconteceu prisão de André, quando foram abordados por Felipe. Em um vídeo, gravado de dentro de um carro, o homem discute com o PM, que alega estar se sentindo ameaçado com a presença deles.

“Não vem me ameaçar aqui, parar na porta da minha casa, me encarando”, acusou Felipe. “Se vão ficar aqui na minha porta me ameaçando eu vou chamar uma viatura”, seguiu. Com o desentendimento, o casal desistiu de obter as imagens naquele dia.

Na ocasião, o PM ainda diz que “se é ladrão eu quero que se foda”, reafirmando aos parentes que o motoboy fez menção de sacar uma arma e por isso ele agiu. “Eu tenho a filmagem e ela vai chegar, fica tranquilo. O cara tentou me roubar, tentou roubar minha arma três vezes, me jogou no chão”, descreve. “Se tentou me roubar eu acabo [com a vida] mesmo”.

O motoboy foi preso e agredido pelo soldado no dia 28 de agosto. De acordo com o policial, o homem tentou assaltá-lo após mencionar que sacaria uma arma. A versão da família é diferente: André teria acabado de entregar uma pizza com sua moto e estava fazendo uma pausa no trabalho.

Há outras ameaças do PM, segundo o advogado. Em comentário na rede social Instagram, Felipe volta a defender que André tentou pegar sua arma e que atentou contra sua vida.

“O Andrezinho já teve problemas com a Justiça, eu, Felipe, jamais tive sequer uma punição no meu trabalho”, se defende, dizendo que irá relacionar “todas as pessoas que estão falando meu nome sem nenhuma prova” e cobrá-las legalmente.

Nas redes sociais, Felipe publica vídeos de perseguições policiais, algumas com agressões dos PMs aos suspeitos, além de exaltar o trabalho da PM ao som de rappers e divulgar seus “parceiros comerciais”. A Ponte tentou entrevistá-lo, mas ele respondeu que “jamais darei entrevista a vocês”.

O advogado de André aponta que irá “verificar a quantas andam as investigações das corregedorias [das polícias Militar e Civil] para complementar ou não” as denúncias com as intimidações do soldado no vídeo e no Instagram.

A Justiça de São Paulo arquivou o inquérito policial pois, segundo a juíza Tania da Silva Amorim Fiuza, não havia elementos que comprovassem a acusação e que permitissem um processo contra o entregador.

A magistrada levou em consideração o pedido do Ministério Público. Nele, o órgão solicitava o arquivamento do caso por não haver comprovação da tentativa de roubo descrita pelo policial. André estava desarmado, ponto ignorado pela Polícia Civil para determinar a sua prisão em flagrante.

“O sentimento é de demasiada alegria e satisfação em ver que a verdade apareceu e a Justiça foi feita. E que os responsáveis pela injustiça que fizeram com o André sejam rigorosamente punidos”, comemora o advogado de André.

André permaneceu preso até a Justiça revogar sua prisão preventiva, com liberdade na última quarta-feira (2/9). Naquele momento, Tania da Silva já considerava não ter elementos suficientes comprovando o crime apontado pelo soldado.

Paschoal explica que o próximo passo será tentar a responsabilização dos agentes públicos envolvidos na ação. Além do PM Felipe, aponta também para os policiais militares que atenderam a ocorrência e o delegado André Cesar Pereira Leocata, do 73º DP (Jaçanã), responsável pelo registro da ocorrência.

André Andrade Mezzette foi agredido pelo PM Felipe da Silva Joaquim antes de ser preso | Foto: Arquivo/Ponte

“Tudo se iniciou a partir do soldado Felipe, mas há muito provavelmente a participação de outros funcionários públicos. O André quer que os responsáveis por todo esse processo que ele passou injustamente sejam responsabilizados”, afirma o defensor.

A reportagem questionou a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos nesta gestão de João Doria (PSDB), sobre a decisão e se as Corregedorias investigam os trabalhos dos PMs e do delegado envolvido no caso. No entanto, a assessoria de imprensa terceirizada da SSP, feita pela InPress, não respondeu as perguntas.

Segundo a pasta, o PM está afastado do serviço de rua. Quando isso ocorre, o policial presta serviços administrativos e mantém o recebimento de seus salários. “A decisão da Justiça será avaliada no curso do inquérito”, explica a pasta, por meio de nota, sem apontar se o PM e o delegado poderão responder pela prisão de André.

A reportagem fez as seguintes perguntas:

A Corregedoria da PM abriu inquérito para apurar a atuação de Felipe?
A Corregedoria da Polícia Civil analisa a elaboração do BO, feito pelo delegado André Cesar Pereira Leocata?

Reportagem atualizada às 20h de quarta-feira (9/9) para incluir denúncia de intimidação do PM Felipe, segundo advogado de André.

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