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PM que agrediu motoboy em SP paga de influencer nas redes sociais

02/09/20 por Arthur Stabile

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Soldado Felipe da Silva Joaquim publica ações policiais no Instagram, onde compartilha seus “parceiros comerciais”; canal no YouTube com perseguições da Rocam ligado a ele tirou os vídeos do ar

Soldado usa seu perfil nas redes sociais para publicar fotos fardado e ações policiais | Foto: Reprodução/Instagram

O policial militar Felipe da Silva Joaquim, 30 anos, utiliza seu perfil na rede social Instagram para exaltar a corporação, compartilhar ações policiais e divulgar “parceiros comerciais”. Felipe prendeu o motoboy André Andrade Mezzette, 29 anos anos, no dia 28 de agosto, na região do Tremembé, zona norte da cidade de São Paulo.

As ações envolvem policiais em motocicletas, tropa conhecida como Rocam (Rondas Ostensivas Com Apoio de Motocicletas), a qual o soldado faz parte. São vídeos desde o início das perseguições, algumas com 12 minutos de duração. muitos divulgados também no canal de YouTube Rocam Norte, aparentemente ligado ao soldado. Depois do caso de agressão, o canal retirou todos os vídeos do ar.

Em uma delas, a PM persegue um motoqueiro que bate a moto em uma parede antes de ser abordado. Pela batida, intitulou a gravação como “ele achou que era Harry Potter (bruxo protagonista dos livros infanto-juvenis), tentou passar através da parede”.

“Deita, deita!”, grita, apontando a arma. O policial pergunta se a moto é roubada e se o rapaz está armado. “Tira a mão da cintura!”, diz, antes de agredir o homem. Questiona se o motorista responde por algum crime na Justiça e por qual motivo fugiu da abordagem. “Qual é a ideia, tio? Qual é o seu vulgo?”.

A Ponte tentou conversar com Felipe através da rede social Instagram. Em resposta ao pedido de entrevista, o soldado respondeu que “jamais darei entrevista a vocês”. O soldado faz as postagens promovendo o trabalho policial ao som de rappers como Hungria, Pregador Luo e PapaMike (este último, do gênero “rap policial”).

A família do trabalhador negro acusa o PM de ter inventado um roubo, que colocou o entregador negro na cadeia de forma preventiva (sem prazo máximo antes da decisão judicial de culpa ou inocência). A Ponte denunciou o caso no domingo (30/8).

No boletim de ocorrência, Felipe aponta que estava na rua quando viu o motoboy parado. Segundo o soldado, André teria feito menção de sacar uma arma e iria anunciar um assalto, mas o PM, à paisana, o imobilizou e acionou reforço.

Imagens de câmera de segurança mostram o homem chamando o entregador de “verme”, “arrombado”, “noia” e apontando a arma para sua cabeça. A família de André ainda denuncia agressão com uma coronhada, que teria deixado uma marca na cabeça.

Publicação feita pelo policial aos seus 93 mil seguidores | Foto: Reprodução/Instagram

André ficou preso preventivamente desde o dia da ação policial até esta quarta-feira, enquanto Felipe segue ativo nas redes sociais. A última postagem é justamente do dia 28 de agosto, em perseguição do perfil Rocam Zona Norte.

“A ROCAM não para”, escreveu, com uma caveira em seguida. Nesta e em outras publicações o soldado inclui uma lista de “parceiros comerciais” que indica para os seguidores seguirem, como o dentista doutor Marcos Aurélio e o barbeiro Kaue Prado.

Além dos profissionais, o soldado Felipe divulga em sua biografia a página da escola Esquadrão PM, que vende materiais para concurseiros interessados em virar policiais.

Prisão ampliada

A Justiça agravou a prisão do motoboy André, feita por Felipe no dia 28. Um dia depois da ação, a juíza Vivian Brenner de Oliveira acatou pedido do Ministério Público para tornar a prisão temporária (com prazo determinado) em preventiva por roubo tentado.

Segundo a promotora Maria Gabriela Ahualli Steinberg, o flagrante feito pelo soldado Felipe “está em ordem”. Conforme documento da Polícia Civil, ela aponta que André agiu “com grave ameaça”. Usou um processo por receptação para considerá-lo reincidente.

“Entendo que a custódia cautelar se faz necessária para a garantia da ordem pública, pois bem se vê que o indiciado faz do crime seu meio de vida, o que implica em grave risco para a sociedade”, defende a promotora.

A juíza Vivian aceitou o pedido, seguindo a mesma lógica apontada pela acusação. No entanto, nenhuma das duas levou em consideração a falta de arma no suposto roubo.

A única prova do crime é a versão dada pelo PM Felipe. Conforme depoimento do policial, André teria feito menção de sacar uma arma e, por isso, ele o abordou antes de ser assaltado. No entanto, nenhuma arma fora encontrada com o entregador.

Não consta a versão do motoboy André no registro da ocorrência, feito no 73º DP (Jaçanã) pelo delegado André César Pereira Leocata. Há apenas versões do soldado, colocado como vítima, e dos PMs que atenderam o chamado via 190, já que André estava em atendimento na UPA do bairro.

Porém, em nova decisão publicada nesta terça-feira (1/9), a juiza Tania da Silva Amorim Fiuza determinou a liberdade de André e pediu que a Corregedoria da Polícia Militar investigue a acusação de agressão feita pelo motoboy contra o PM.

Sem respostas

A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública sobre a ação policial do soldado Felipe e se o uso de suas redes sociais segue as regras da PM, além de pedir entrevistas com o policial e o delegado André César Pereira Leocata. Até a publicação dessa reportagem, a pasta, comandada pelo secretário João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), não respondeu os questionamentos.

A reportagem também acionou os “parceiros comerciais” do soldado. Nem o dentista, doutor Marcos Aurélio, nem o barbeiro Kaue Prado, responderam as mensagens enviadas pelo Instagram. O mesmo foi feito com a Esquadrão PM, em mensagem pela rede social Facebook, também sem resposta sobre a parceria com o PM.

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Ao Ministério Público, a Ponte indagou se a promotora Maria Gabriela Ahualli Steinberg levou em consideração a falta de um armamento para o possível cometimento de um roubo e quais evidências usou para definir que André “faz do crime seu meio de vida”. A assessoria do órgão respondeu que “a manifestação do MPSP está nos autos”.

As mesmas perguntas foram feitas ao Tribunal de Justiça de São Paulo sobre a decisão da juíza Vivian Brenner de Oliveira em ampliar a prisão do motoboy. Segundo a assessoria de imprensa, o Tribunal “não pode se manifestar sobre matéria judicializada” e os magistrados são impedidos de dar entrevistas em processos pendentes de julgamento, conforme a Lei Orgânica da Magistratura.

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