Morre jovem com deficiência visual baleado dentro de casa pela PM na Operação Escudo

Sem mandado judicial, policiais da Rota invadiram casa em São Vicente (SP) no dia 7 e balearam Hilderbrando Simão Neto e seu amigo, Davi Gonçalves Júnior. O amigo morreu no mesmo dia e Hilderbrando, ontem à noite

Hilderbrando Simão Neto
Hilderbrando Simão Neto, 24 anos, tinha ceracotono, uma doença que pode levar à perda da visão | Foto: arquivo pessoal

Baleado dentro de casa por policiais militares, Hilderbrando Simão Neto, 24 anos, morreu na noite desta quinta-feira (8/2), após passar por cirurgia no Hospital do Vicentino, em São Vicente, no litoral de São Paulo.

“Só consigo sentir tristeza no coração e [pedir] justiça pela vida do meu filho, que nunca fez mal pra ninguém”, disse à reportagem a mãe do rapaz, que pediu para não ser identificada.

Como a Ponte revelou, o jovem foi baleado na tarde de quarta-feira (7/2), no bairro Parque São Vicente, por policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), força especial da PM paulista, no âmbito da Operação Escudo, que foi deflagrada em resposta ao assassinato do soldado Samuel Wesley Cosmo, também da Rota, em 2 de fevereiro. Hilderbrando estava com um amigo, Davi Gonçalves Júnior, 20 anos, que também foi baleado e morreu ainda na quarta-feira.

Hilderbrando sofria de ceratocone, uma doença que pode levar à perda da visão. Segundo a família, ele e Davi estavam em casa fazendo café quando os policiais invadiram o local, sem mandado judicial, e mandaram parte das pessoas presentes saírem, menos o jovem e seu amigo. No local, havia nove pessoas, três delas crianças.

Os familiares contaram que começaram a gritar, avisando que o jovem tinha deficiência visual. “Cuidado para ele não se assustar, não façam besteira com ele”, suplicaram. Em meio aos pedidos desesperados, eles ouviram os disparos.

Na sequência, um policial teria saído da casa e perguntado aos colegas se estava ferido. A atitude revoltou a família, que novamente disse aos agentes que Hilderbrando tinha deficiência visual. “Como ele deu tiro? Ele é cego!”, exclamou uma familiar. Um vídeo registrou o momento dos disparos dentro da residência e o desespero dos familiares (veja a abaixo).

As ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegaram ao local e a família entendeu que Hilderbrando e Davi estavam feridos. O jovem foi levado ao Hospital do Vicentino e o amigo, ao Pronto Socorro Central. Davi morreu pouco depois e Hilderbrando, ontem à noite. Os dois eram amigos desde a adolescência.

A versão da família difere da apresentada pelos policiais da Rota na delegacia de São Vicente. Segundo os depoimentos dos PMs Nielson de Araújo Guedes e Tiago Morato Maciel, as equipes foram até o endereço do Parque São Vicente após receberem uma denúncia anônima de que no local estariam abrigadas pessoas ligadas ao tráfico de drogas.

Sem mencionar qualquer mandado que autorizasse a ação, os policiais entraram na casa descrita por eles como uma “residência de habitação coletiva” e que “estava com a porta aberta, razão pela qual entraram no imóvel”. A prática é proibida pela Constituição Federal. Além disso, a família rebate a afirmação de que se tratava de uma residência coletiva e diz que ali moravam apenas Hilderbrando e seus parentes.

Os PMs contaram que revistaram parte das pessoas que estavam no imóvel e prosseguiram na incursão pela casa. Ao entrar em um dos cômodos, Hilderbrando supostamente teria apontado uma pistola e sido atingido por dois tiros de fuzil, disparados por Tiago e Nielson. 

Ao perceberem que uma outra pessoa também estava na casa, os policiais teriam ido ao seu encontro, momento em que teriam encontrado Davi, supostamente armado. Como ele não teria obedecido à ordem de rendição, a dupla teria disparado mais uma vez, segundo esta versão. Davi levou dois tiros de fuzil, pelos mesmos policiais.

Os PMs relataram ainda que, em buscas pela casa, teriam supostamente apreendido um fuzil embaixo da cama do cômodo onde Hilderbrando foi encontrado. A família nega. Apesar de a denúncia inicial citar um depósito de drogas, nenhum entorpecente foi apreendido pelos agentes. 

Mesmo internado em estado grave, Hilderbrando teve pedido de prisão preventiva (sem prazo) feito pelo delegado Lucas Santana Dos Santos, da Delegacia de São Vicente. Santos pediu exame residuográfico (para identificar vestígios de chumbo) nos policiais militares e também na dupla de amigos. Os fuzis dos PMs e as armas apreendidas no local também devem ser periciados, mas o delegado não solicitou as imagens das câmeras nas fardas dos policiais.

A prisão em flagrante de Hilderbrando foi convertida em preventiva pelo juiz André Luis Maciel Carneiro, da Vara de Plantão, em Santos, sem a presença do jovem baleado, que estava no hospital sob escolta policial. Ao juiz, foi apresentado o histórico negativo de antecedentes criminais do jovem, que nunca tinha sido preso. Mesmo assim, o juiz justificou a prisão preventiva dizendo que “o investigado não comprovou atividade lícita e residência fixa, a revelar que a chance de fuga é relevantíssima”.

Paixão por cantar

Hilderbrando era pai de dois filhos de quatro e três anos. Segundo a família, em razão da deficiência visual, ele saía da residência sempre acompanhado por alguém e costumava ser muito caseiro. 

A família estava com processo para que o jovem recebesse benefício do Estado em função da impossibilidade de trabalhar. O exame da perícia, segundo os familiares, estava marcado para os próximos dias.

Recentemente, ele ganhou dos parentes um notebook onde trilhava os primeiros passos rumo ao sonho de ser trapper. Cantar era uma das paixões do jovem. No momento em que foi atingido, ele estava justamente fazendo o que mais gosta. 

“Ele estava no quarto porque adorava cantar, sempre ficava fazendo vídeo, cantando as musiquinhas que ele inventava. Estava com o amigo ajudando ele”, conta uma parente. 

Operação Escudo 

Mortes e casos de violência contra policiais de serviço e folga motivaram a deflagração de novas operações Escudo em São Paulo desde janeiro. A ação ocorre sempre que há registros de óbitos desses agentes públicos, mas é taxada por especialistas como atos de vingança. 

Na Baixada Santista, a ação foi intensificada após a morte do policial da Rota Samuel Wesley Cosmo, em Santos, no último dia 2. Ele estava em patrulhamento quando foi atingido no olho.

De lá para cá, ao menos 10 mortes ocorreram após trocas de tiros. Entre elas, o catador de latinhas José Marques Nunes da Silva, 45 anos. Ele foi morto no Jóquei Club, em São Vicente. A família denunciou à Ponte que José implorou para não morrer e contesta a versão de que ele teria atirado contra os policiais. 

O que dizem as autoridades

Questionada sobre a conduta dos policiais militares e do delegado, a Fator F, assessoria terceirizada da Secretaria de Segurança Pública, não respondeu e enviou a seguinte nota:

Um homem de 20 anos morreu e outro, de 24, foi preso em flagrante por porte ilegal de arma de fogo na noite desta quarta-feira (7), na Avenida Osvaldo Toschio, em São Vicente. Policiais militares foram a um imóvel apurar uma denúncia de tráfico de drogas quando foram surpreendidos pelo suspeito armado. O homem apontou o revólver para os PMs, que atiraram e o atingiram. No cômodo ao lado outro homem armado recebeu a ordem de se entregar, mas fez menção de atirar nos policiais, que intervieram novamente. O SAMU foi acionado e os suspeitos conduzidos ao Hospital, onde o de 20 anos morreu. O outro permaneceu internado sob escolta policial. As armas dos suspeitos e dos policiais foram apreendidas. No imóvel também foi apreendido um fuzil calibre .556. O caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial, posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, excludentes de Ilicitude – legítima defesa e tentativa de homicídio na Delegacia de São Vicente.

Ajude a Ponte!

Sobre a conduta do juiz na audiência de custódia, a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de São Paulo respondeu:

Esclarecemos que os representantes do Ministério Público e da Defensoria Pública participaram da referida audiência de custódia e formalizaram suas manifestações colhidas oralmente.

Esclarecemos, ainda, que os magistrados não podem se manifestar sobre processos em andamento, pois são impedidos pela Lei Orgânica da Magistratura (Loman):

“Art. 36 (Loman) – É vedado ao magistrado:

III – manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais,  ressalvada a crítica nos autos e em obras técnicas ou no exercício do magistério.”

Além disso, Tribunal de Justiça não emite nota sobre questões jurisdicionais. Os magistrados têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independência é uma garantia do próprio Estado de Direito. Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente.

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