Música, poesia e grafite lembram Lucas, morto aos 14 anos

15/12/19 por Paulo Eduardo Dias

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Comunidade homenageia menino que foi achado morto, segundo família, após abordagem da PM

Dezenas de livros foram arrecadados durante o evento | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Cerca de 100 pessoas se reuniram na Favela do Amor, na Vila Luzita, periferia de Santo André, na Grande São Paulo, para homenagear Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14 anos, morto há um mês. Familiares afirmam que Lucas sumiu após abordagem policial.

O jovem sumiu na madrugada do dia 13 de novembro, seu corpo foi encontrado dois dias depois, no dia 15/11, no Parque Natural Municipal Pedroso, em Santo André, na Grande São Paulo. A confirmação do exame de DNA só ficou pronta no dia 28 de novembro.

Com articulação da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, a homenagem teve uma programação de quase 6 horas. Oficina de DJ para as crianças, sarau, batalha de rimas e diversas apresentações encheram a agenda do dia, que contou com a presença da grafiteira Nenê Surreal.

Nenê Surreal fez um grafite na Favela do Amor contra o genocídio | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

“Hoje estou aqui contra o genocídio. Em apoio a essa comunidade, mais uma vítima da polícia que não nos representa. O trabalho feito é vômito pela injustiça, pelo genocídio”, conta Nenê Surreal, grafiteira de Diadema (Grande SP).

Uma arrecadação de livros foi feita durante o evento. A ideia era arrecadar livros para as crianças da comunidade, mas, como houve uma grande adesão de doações, uma biblioteca será montada na Favela do Amor.

Uma biblioteca será montada na comunidade com os livros doados | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Katiara Oliveira, articuladora da Rede de Proteção, explica o objetivo do ato: “A estratégia [do ato] era mostrar solidariedade à família, trazer a cultura hip hop e o sarau como forma de humanizar a luta contra o genocídio diante da dor, do medo e da violência do Estado”.

Avós, tios, tias, primos e primas de Lucas estiveram no ato. “Nós queremos a resposta de quem matou o Lucas. Eles não querem assumir a maldade que cometeram. Eles acabaram com a nossa família”, desabafa a dona de casa Maria do Carmo Martins, 66 anos, avó de Lucas.

A estudante Amanda Stefani, 19 anos, prima de Lucas, escreveu um poema em homenagem ao jovem. Intitulado “Mais um”, o poema narra o último mês na Favela do Amor, desde o desparecimento do adolescente. A poesia foi construída como se Lucas estivesse contando a sua própria morte. “Hoje eu falo por todos, eu era apenas uma criança, um jovem do gueto, feliz, até acontecer uma mudança”, diz um trecho do poema.

Músicos da Dopebrainz, grupo que canta rap e trap, além de se apresentarem no ato, levaram livros para casa. “Me interesso por ler contos policiais e de ficção”, afirma Gustavo Lira, 18 anos, conhecido por Veneno.

Já Paulo Henrique, 18, o KZ-Miro, entende que ler é fundamental. Outro integrante do grupo, Thiago Trajano, 18, o Spasmo, afirma que “o livro é permitir sabedoria, conhecimento”.

Músicos da Dopebrainz se apresentaram no ato (da esq. para dir.: Gustavo, Paulo Henrique e Thiago) | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Alimentos e produtos de higiene pessoal também foram arrecadados para serem enviados à Maria Marques Martins dos Santos, 39 anos, mãe de Lucas, que está presa desde o dia 19 de novembro enquanto prestava depoimento sobre o desaparecimento do filho.

Maria foi presa porque havia um mandado de prisão contra ela de 2017 referente a uma acusação de tráfico de drogas. Ela foi presa em 2012, mas logo foi solta. Em 2013 foi absolvida pela Justiça de Santo André. Em 2015 foi condenada em segunda instância por tráfico de drogas.

No velório de Lucas, Maria permaneceu o tempo todo algemada e sob vigilância de uma agente feminina. Ela utilizava chinelos e o uniforme marrom, vestimenta adotada pelo sistema carcerário de São Paulo.

Uma das tias de Lucas, Isabel Daniela dos Santos, 34 anos, teve que deixar a Favela do Amor com seus filhos e marido. Vizinhos contaram que viram carros com vidros escuros rondando a casa e pessoas estranhas da comunidade no portão, o que motivou a saída.

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