Oscar prova: pessoas trans podem ser interpretadas por… atores trans

Membros do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans) falam da importância de atores e atrizes trans vivenciarem suas histórias nas artes, suprimindo o transfake

Demorou 90 anos para um filme protagonizado por uma mulher transexual, interpretando uma personagem trans, pudesse vencer na maior premiação cinematográfica do mundo. No último domingo (4/3), a produção chilena de “Uma mulher fantástica” conseguiu fazer história. O longa dirigido e escrito por Sebastián Lelio trazia como protagonista Daniela Vega, 28 anos, que interpretou a transexual Marina, ganhou a estatueta de “Melhor filme estrangeiro” e se tornou o primeiro filme com uma atriz transexual a levar um Oscar para casa. Vega também fez história sendo a primeira atriz trans a participar da apresentação da cerimônia.

Outros filmes com a temática trans já ganharam Oscar em outras edições da premiação, todos interpretados por atores e atrizes cisgêneros. “Meninos não choram” (1998), na categoria melhor atriz (prêmio para atriz cis Hilary Swank, que interpretou o homem trans Brandon Teena); “Clube de Compras Dallas”, em três categorias, incluindo ator coadjuvante (estatueta para o ator cis Jared Leto, que vivenciou travesti Rayon) e “A garota dinamarquesa” (2015), na categoria atriz coadjuvante para Alicia Vikander, que viveu a personagem cis Gerda Wegener, esposa da personagem Lili Elbe (interpretada pelo ator cis Eddie Redmayne). No longa “Transamérica” (2005), a atriz Felicity Huffman, concorreu ao Oscar de melhor atriz, mas não levou a estatueta para casa.

Para Renata Carvalho, 36, atriz e travesti, membro do MONART (Movimento Nacional de Artistas Trans), lembra que a representatividade é um fator determinante na vida de pessoas trans. “Representatividade é isso, é o ato de estarmos presentes com o nosso corpo concreto, incluído na sociedade. O filme não nos torna visíveis, nos torna concretas, porque nós estamos nesse filme como corpos”, explica Renata, que interpreta Jesus na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu.

Dandara Vital, 37, atriz trans e representante do movimento no Rio de Janeiro, lembra da luta que o grupo está travando contra o que se chama de transfake, termo usado para a prática de atores cisgêneros (pessoas que se reconhecem no gênero de nascimento) interpretarem personagens trans e travestis (pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento). Esta ação é remetida ao blackface, quando brancos pintam o rosto de negro para interpretação.

“O transfake é algo estrutural, os próprios praticantes de transfake são os que mais batem no nosso movimento, criam mentira, mobilizam pessoas para irem contra a gente. Ver um filme protagonizado por uma mulher transexual ganhar o Oscar mostra força e o quanto a representatividade é importante”, conta Dandara.

Renata Carvalho lembra que pessoas trans não são escaladas para vivenciar suas histórias, pois são ditas como talentos insuficientes, o que dá espaço para produtores convidarem atores cisgêneros para tais papéis. “Ela [Daniela Vega] é uma ótima atriz, isso prova que nós também podemos ser atrizes. Ela humaniza a personagem e, como acreditam que nós não somos humanas, que nós não temos a capacidade de humanizar histórias, e daí convidam atores cisgêneros, porque acreditam que eles estão mais preparados. Mas isso cai por água abaixo quando a gente vê a atuação dela. E aí a Daniela é coroada como essa mulher fantástica no Oscar”, comemora.

Daniela Vega protagonizou o filme “Uma mulher fantástica” | Foto: reprodução/Facebook

João Maria, 26, artista transmasculina não-binária (pessoa que não vivencia nenhum dos papéis de gênero, ou seja, não se reconhece como homem ou como mulher) e intersexual (pessoa com variações na anatomia que não se encaixa nas definições tradicionais de gênero masculino ou feminino), membro do MONART em Minas Gerais, acredita que a premiação do Oscar vai além da representatividade LGBTI+. “Não há dúvidas do quanto o Oscar contribui na representatividade. Seja de mulheres, povos originários, LGBTI+, pessoas negras, enfim. Toda a camada que é diariamente oprimida e violada precisa de representatividade, necessita pertencer aos espaços e participar enquanto cidadãs da construção e desconstrução da sociedade”, conta.

Dandara também reforça o argumento de que a representatividade vai muito além do entretenimento em si, pois as pessoas trans, de um modo geral, ainda precisam se conscientizar entre a diferença de visibilidade e representatividade. “Para você ter uma ideia, muitas pessoas trans ao anunciarem essa vitória falavam em visibilidade, isso porque muitas de nós ainda não conseguiu chegar na margem da sociedade. Muitas travestis e pessoas trans nem sequer vão ao cinema, porque esses espaços são negados para a gente”, explica Dandara. Visibilidade é o fato de existir filmes com temática trans, enquanto representatividade é quando as pessoas trans se sentem identificadas no personagem ali presente.

Ainda sobre o segundo tema, João Maria argumenta que há uma ligação direta entre representatividade, cidadania e mercado de trabalho. “Creio que a reivindicação por representatividade é uma reivindicação para que haja diminuição da desigualdade social, portanto, dos privilégios e desprivilégios, bem como uma negação da margem social a qual a população de travestis e pessoas trans é posta”, explica.

João Maria também lembra da vitória da população trans no STF (Superior Tribunal Federal), em que podem transgêneros foram autorizados a alterar o nome sem necessidade da intervenção da cirurgia de redesignação sexual, apresentação de laudos ou autorização judicial. “Em breve, não seremos mais reconhecidas apenas como uma possibilidade de CID psiquiátrico (laudo exigido anteriormente pras pessoas trans alterarem o nome) e não precisemos lutar pelo direito de existir”, comemora.

Para além das estruturas cisgêneras, segundo Renata Carvalho, as artes devem espelhar a sociedade, e, assim, proporcionar inclusão para pessoas trans. “Parafraseando Angela Davis, quando uma pessoa trans se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Então nós queremos dizer que vamos continuar balançando as estruturas para que artistas cisgêneros entendam a necessidade de soltar os seus privilégios”, conclui Carvalho.

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