Pichação se une em protesto por mortes de Alex e Ailton

08/08/14 por Fausto Salvadori

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Morte com suspeita de execução leva pichadores a fazer a primeira passeata da história do movimento

Um movimento inédito aconteceu entre os pichadores de São Paulo como reação à morte de dois colegas, Alex Dalla Vechia Costa, 32 anos, o ALD, e Ailton dos Santos, 33, o Anormal, nas mãos da Polícia Militar. Acostumados a agir nas sombras e a se dividir em grupos (chamados de “grifes”) que guerreiam entre si, às vezes com violência, os pichadores ontem se uniram para fazer uma passeata e, de cara limpa, cobrar justiça do Estado.

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“Nunca houve uma passeata de pichadores. É um fato histórico”, saudou Djan Ivson, 30 anos de idade e 18 de pichação, um dos organizadores da manifestação, que reuniu cerca de 250 pessoas diante do prédio da Secretaria da Segurança Pública, na Sé. Grifes com histórico de rivalidade, como OS RGS e OS + Imundos, marcharam lado a lado. “Pelo menos a morte dos meninos trouxe uma coisa boa. Grifes que faziam guerra se juntaram hoje. Estamos numa ação coletiva”, disse.

Há uma semana, Alex e Ailton apareceram no noticiário como uma dupla de assaltantes perigosos, que teria tentado roubar um prédio na Mooca, região central de São Paulo, na noite de 31 de julho, e acabou morta ao trocar tiros com a Polícia Militar. Pelo menos, é assim que foram descritos em reportagens de TV que reproduziram a versão da polícia. Num programa da Record, um “especialista em segurança” da emissora chegou a atacar o despreparo do porteiro, que “confundiu os ladrões com moradores, um absurdo isso”.

Nos dias seguintes, os depoimentos de amigos e familiares passaram a pintar uma imagem diferente sobre os dois. Tanto Alex como Ailton eram pichadores que curtiam “fazer prédios altos” e colecionavam passagens na polícia por conta disso (a pichação é crime ambiental punível com até um ano de detenção ou multa), mas não tinham histórico de roubos. Horas antes de serem mortos pela polícia, haviam anunciado aos amigos que pretendiam entrar num prédio da avenida Paes de Barros – apenas para pichar.

E não era só a história de vida de Alex e Ailton que parecia não se encaixar no enredo oficial. A própria versão contada pela PM tinha uma série de pontos esquisitos, como a demora de quatro horas dos policiais militares em apresentar a ocorrência na delegacia ou o fato de que os dois supostos ladrões tiraram “selfies” no elevador e passaram pelo porteiro e pelo zelador sem mostrar armas. Ontem, a “conduta irregular” dos policiais no episódio levou a Justiça Militar a decretar a prisão temporária de quatro PMs envolvidos na morte dos pichadores.

Tinta não é arma

“Essa prisão temporária é pouco. Queremos ter certeza de que vai ser feita justiça”, disse a cozinheira Érica Ferreira, 31 anos, ex-mulher de Alex, que ontem marchou segurando velas acesas diante da passeata. Érica tem dois filhos, de 8 e 5 anos, com o pichador. O filho mais velho deixou de ir à escola. As comemorações da semana do Dia dos Pais o entristeciam demais.

Ele não suporta mais nem ser chamado pelo próprio nome, que é o mesmo do pai. “Quando falam ‘Alex’, ele chora”, contou.

A passeata saiu às 19h20 da Rua Dom José de Barros, na República, point tradicional dos pichadores. No evento marcado por Djan no Facebook, a ordem era “ir de cara limpa, sem tinta ou qualquer outro flagrante que possa comprometer”. Foi obedecido. Os pichadores aplicaram sua caligrafia em faixas e cartazes, misturando os nomes de Alex e Aiton e os símbolos de grifes com mensagens pedindo verdade, justiça e respeito.

Os passeatas-ativistas começaram rezando um Pai-Nosso e emendaram com palavras de ordem. Algumas em defesa da pichação: “Abaixo a repressão, pichador não é ladrão”, “Tinta não é arma”, “Viva a pichação”. Outras, pedindo a desmilitarização da polícia: “Não acabou? Tem que acabar. Eu quero o fim da Polícia Militar”.

Alguns começaram a puxar os gritos de seus grupos de “pixo”. “Uh, erre, gê, esse!”, gritaram membros d’OS RGS (Registrados no Código Penal), mesma grife de ALD e Ailton. O grito foi abandonado a pedido de Djan: “Grife, não!”. Mais tarde, ele explicaria: “Estamos aqui como familiares e amigos, não como pichadores”.

Diante da Secretaria da Segurança Pública, os manifestantes foram informados pela polícia de que naquele momento não havia ninguém para recebê-los. Os manifestantes, então, colocaram dez velas acesas na escadaria do prédio e, todos juntos, pediram “a investigação e a punição adequada para todos os envolvidos nos assassinatos de Alex e Ailton”. Puxaram um coro de “justiça”, outro de “assassinos” e rezaram um novo Pai-Nosso.

A marcha voltou para a Rua Dom José de Barros, onde encerrou a manifestação, por volta das 21h. Ali, alguns sacaram seus sprays e fizeram a única pichação da noite: as letras de PAZ sobre o asfalto.

Veja abaixo uma entrevista com Djan Ivson, 30 anos, um dos organizadores da primeira passeata de pichadores.

Líder da passeata de pichadores, Djan diz que já foi torturado pela polícia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pichador há 18 anos, Djan diz que já foi torturado pela polícia. (Foto: Arquivo Pessoal)

Por que você ajudou a organizar esse protesto?

Eu era amigo do Alex há 14 anos e era o mínimo que eu podia contribuir. Tenho uma visibilidade legal nas redes sociais e usei isso para fortalecer essa manifestação. A gente está muito indignado porque os caras morreram sem cometer crime algum. A entrada deles foi franqueada pelo porteiro do prédio e nem chegaram a pichar. Imagino o desespero deles nessa situação, porque eles devem ter se identificado como pichador. Estou há 18 anos na pichação e a gente sabe o procedimento.

É um procedimento que vocês têm quando vêm um policial?

Sim. A gente procura gritar e se identificar, até para não sofrer uma violência gratuita. No caso dos meninos, fico indignado porque sei que eles devem ter morrido com as mãos para o alto, se identificando como pichadores.

O que você achou da prisão temporária dos quatro policiais?

A gente ainda não está comemorando a prisão, até porque é temporária. A instituição da PM é muito corporativista e acredito que isso possa passar impune. Esses policiais já tinham um histórico de mortes e estavam aí trabalhando.

O que você já passou na mão da polícia?

Já passei tortura. Muita tortura e humilhação. Banho de tinta, também. Já fui pintado algumas vezes. A pior situação que eu passei foi em Itapevi, em 2000. Os PMs me mandaram deitar de cara no barro com os braços abertos. Eu tentava por a testa na lama, mas eles me mandavam enfiar o nariz. Esfregaram o coturno no meu couro cabeludo, pisaram nas minhas costas, nos meus dedos. Chegou um momento que eu já nem sentia mais as pancadas.

E nunca dá em nada para os policiais?

Não dá. Nesse dia mesmo, a gente chegou na delegacia e não falou para o delegado que tinha sido agredido. Aí meio que a PM amenizou para o nosso lado e a gente foi liberado. É sempre assim. Quando a gente é agredido, provavelmente não vai responder pelo ato de pichar. Quando não tem ninguém para fazer a denúncia, um morador ou o dono de um lugar, eles nem levam para a delegacia. Optam pela agressão e pela humilhação.

Fica uma troca. Vocês não denunciam que apanharam e os PMs não denunciam que vocês picharam?

Sim. Por aí.

Você deve ter visto na internet vários comentários dizendo que “pichador tem que morrer”. Por que você acha que as pessoas têm essa visão?

Pela falta de dimensão política que as pessoas têm, principalmente os reacionários. E o apego às propriedades. Essas pessoas acham que a parede delas vale mais do que a vida, e deixam claro isso. Esse apego ao material é uma coisa que assusta. Nosso “pixo” é uma intervenção efêmera. A parede, o prédio, um shopping, um muro, tudo isso é uma intervenção muito mais permanente e autoritária, porque altera o ideal do espaço público, que é de um espaço heterogêneo. A parede é eterna. O “pixo” pode ser facilmente removido.

Por que você picha?

Pichação é uma necessidade expressiva. É uma forma de arte, também. Todo ser humano tem várias maneiras de se expressar. E o pichador é um jovem que não teve outra oportunidade de se expressar artisticamente e culturalmente a não ser através da pichação.

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