Polícia faz operação nas casas de MCs do funk de SP: ‘funk é perseguido desde sempre’, diz ativista

25/03/21 por Beatriz Drague Ramos

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Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão contra artistas como MC Brinquedo, MC Pedrinho, MC Hariel e Salvador da Rima, entre outros. “É uma perseguição à cultura”, afirma ativista Darlan Mendes

Da esquerda para direita, de cima para baixo: Salvador da Rima, MC Brinquedo, MC Ryan, MC Pedrinho, Léo da Baixada, MC Hariel | Foto: Reprodução / Instagram

A Polícia Civil de São Paulo realiza nesta quinta-feira (25/3) uma operação que tem como alvo os cantores de funk MC Brinquedo, MC Pedrinho, MC Ryan, Salvador da Rima, MC Hariel e Léo da Baixada, com mandados de busca e apreensão realizados suas respectivas residências durante a manhã.

Segundo informações do jornal Bora Brasil, da TV Bandeirantes, os artistas são investigados sob a acusação de serem financiados pelo tráfico de drogas e de lavagem de dinheiro. 100 viaturas cumpriram mandados de busca e apreensão e de prisão na zona leste da cidade de São Paulo, na Região Metropolitana e litoral. MC Pedrinho e o MC Hariel prestaram depoimento e foram liberados.

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Pelo Instagram, o MC Hariel contou que acordou com um mandado de prisão em sua casa. Segundo ele tudo já foi esclarecido na 8ª Seccional do 44º DP (Guaianases). “Fui lá, esclareci tudo referente ao meu nome e a coisas envolvidas a mim e agora é deixar a investigação dos caras fluir. Logo menos vocês vão ver o resultado que não passa de um mal entendido. Eu não tenho nada a ver com o errado, a minha caminhada é limpa, é reta. Minhas músicas falam o que eu tenho para dizer, não preciso ficar me pronunciando”, disse ele em um story no seu perfil.

Postagem de MC Hariel em seu perfil no Instagram. |Imagem: Instagram MC Hariel.

O MC Ryan declarou também pelo Instagram que na madrugada foi surpreendido com a presença da Polícia Civil em um apartamento em que ele morava, acusando-o de vinculo com organizações criminosas. “Não é certo isso, meus advogados já estão em cima, tem vários MCs envolvidos. MC não é bandido, nós queremos fugir dessa realidade de polícia, nós queremos cantar. Orem pela massa funkeira”, declarou.

Na visão do ativista de direitos humanos Darlan Mendes, há um histórico de perseguição aos MCs e esse é mais um caso. “Não é de agora, já somos perseguidos desde o início do funk, a PM sempre perseguiu, o poder público sempre fez essa perseguição, são feitas abordagens diferentes por saber que é um funkeiro. Isso é da cultura da polícia do nosso país”.

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Ele lembra de casos de violência contra funkeiros que até hoje não foram resolvidos, como o de MC Daleste. “Cadê as investigações dos MCs que foram mortos na Baixada Santista? Até hoje não houve esclarecimento. Mortes como a do MC Daleste, Felipe Boladão, MC Duda do Marapé, que continuaram arquivados. O crime contra o funk já vem acontecendo, há muitos anos, e nada é feito. É uma perseguição à cultura. É a mesma coisa que aconteceu no início do samba, porque quem cantava samba e pagode, nas ruas principalmente, eram presos”.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de SP, afirmou à Ponte que a operação é vinculada a uma investigação sobre tráfico de drogas e associação ao tráfico. “Policiais de todas as delegacias seccionais do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (DECAP) estão cumprindo mandados de prisão e de busca e apreensão na capital, região metropolitana e litoral sul de São Paulo. Detalhes serão passados ao término dos trabalhos”.

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A pasta não respondeu quais são as acusações contra os cantores, porque a casa da sogra de Salvador da Rima foi invadida e onde foram encontradas armas e drogas divulgadas nas reportagens da TV Bandeirantes e Record TV. 

A SSP não disse qual a relação destes objetos encontrados com os artistas. Além disso, o pedido de entrevistas com os delegados da 8ª Seccional do 44º DP, encarregados da operação, foi negado à Ponte

Salvador da Rima foi agredido pela PM em fevereiro

Em fevereiro, o músico Fábio Gabriel Salvador de Araújo, o MC Salvador da Rima, 19 anos, foi enforcado por policiais. Em entrevista à Ponte na época, ele afirmou que as agressões não o abalaram. “Isso [agressão] não me abalou, só confirmou o que eu já canto. Mas não fico com medo, fico com mais ódio e vontade de relatar nas músicas o que eles fazem”. 

A agressão aconteceu por volta de 12h do dia 27 de fevereiro, quando policiais da 1ª Companhia do 29º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano chegaram à Rua Moisés Alves dos Santos, no Itaim Paulista, na zona leste da capital paulista, onde o MC e amigos estavam reunidos ouvindo música em um carro estacionado, enquanto se preparavam para uma partida de futebol. 

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Kelly Araújo, companheira e empresária do artista, disse que os PMs pararam e pediram o documento do automóvel que tocava funk. Quando ela foi entregar a documentação, os policiais teriam visto o MC no portão da casa e foram atrás dele, invadindo a residência sem mandado judicial e iniciando as agressões.

O delegado do 67º DP, Sandro Tavora autuou apenas o músico pelo crime de desacatar funcionário público no exercício da função e ignorou as evidências de agressão contra Salvador e a invasão sem mandado judicial feita pelos PMs.

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O mesmo delegado também ignorou um áudio captado por um celular e postado nas redes sociais que supostamente revelaria uma conversa em que os PMs combinam ferir a si mesmos para acusar o funkeiro de agressão. No áudio, é possível ouvi-los dizendo “machuca a mão, aí, negão, o rosto”, “bato a testa aqui já, ó” e “tem que apresentar nós como vítima, mesmo”. 

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