Seguranças do metrô agridem e enforcam artistas de rua em SP

05/06/21 por Paulo Eduardo Dias

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Vídeo publicado por uma das vítimas mostra funcionário enforcando jovem até ele perder os sentidos; “Eu percebi que eles sentiam prazer em fazer isso”, diz poeta que recebeu mata-leão

Artista de rua é enforcado por agente de segurança do metrô de SP | Foto: Reprodução

Um trio de artistas de rua que se apresentam no metrô de São Paulo foi agredido por agentes de segurança da companhia, após serem proibidos de se apresentarem dentro dos vagões que ligam o Jabaquara, na zona sul, ao Tucuruvi, na zona norte.

Parte das agressões físicas, que inclui golpe de estrangulamento, foi gravada por uma das vítimas. As agressões acontecerem no início da tarde da última segunda-feira (31/5) na Linha 1-Azul.

Em vídeo, a artista Poeta Gimenez contou que, naquele dia, havia emprestado sua caixa de som para que uma amiga pudesse se apresentar e conseguir dinheiro para sustentar sua filha pequena e também comprar sua própria caixa de som.

“Na estação Vila Mariana os guardas chegaram, abordaram. Eu falei: Sol, sobe e paga sua passagem. Infelizmente é assim, mas você volta e conquista de novo”. Como não estava se apresentando naquele momento, Poeta Gimenez explicou que não tinha o porquê deixar o local. “Eu não iria sair, porque o proibido é fazer apresentação nos vagões. E os guardas insistiram a todo momento que eu tinha que sair também. Ficaram três guardas homens comigo e insistindo que se eu não saísse, eu ia sair à força. E assim foi feito. Eles pegaram minha mochila à força alegando que tinha drogas dentro dela. Eu falei que não tinha, e, como todo poeta, tinha só tinha livros, caneta, borracha”.

De acordo com Poeta Gimenez, foi nessa hora que passou a sofrer agressões físicas e intimidações. “Eles revistaram, não acharam nada, pegaram meus dois braços à força colocaram para trás, me colocaram no chão. Quebraram a alça da minha caixa. Eles rasgaram meu dedo, minha mão ficou sangrando. Colocaram eu para fora da estação à força”.

Caixa de som quebrada, segundo Poeta Gimenez, após ação dos guardas | Foto: Reprodução

Durante toda a confusão, a artista narrou ter conseguido visualizar a presença de apenas uma agente de segurança feminina, sendo todos os outros homens, o que causou ainda mais temor.

“Só tinha uma guarda feminina. Guarda homem não pode tocar em mulher. Eu me senti impotente naquele momento, eu me senti frágil, eu chorava. Os passageiros somente olhavam, não faziam merda nenhuma, ninguém fazia nada”. A ausência de participação dos usuários do metrô enquanto era agredida também deixou a artista aborrecida. “Isso que me revolta, quando eu estou lá no vagão cantando, poucas pessoas me assistem, agora, quando estou apanhando de guarda, forma uma rodinha para ficar me assistindo e ninguém faz nada”.

Leia também: Artista é agredido e sufocado por seguranças do Metrô

O vídeo compartilhado por Poeta Gimenez e que viralizou nas redes sociais inicia com um jovem levando um golpe conhecido como mata-leão, uma imobilização através de estrangulamento, que visa fazer a pessoa perder os sentidos momentaneamente, mas que também pode matar. Tal procedimento foi vetado pelo comando da Polícia Militar, mas segue sendo utilizado por policiais.

O homem que aparece na gravação é Kevin Rodrigues, 23, que também é artista de rua. No mesmo vídeo, ele contou como sofreu a agressão. De acordo com suas palavras, ao saber que a bolsa de sua amiga havia sido revistada por um homem ficou “nervoso” e resolveu tirar “satisfação” com o guarda. Ao chegar na estação Ana Rosa acabou por contestar verbalmente o funcionário.

“Logo depois de eu pronunciar algumas palavras, um segurança veio me dando um mata-leão, o outro segurou meu braço para eu não conseguir segurar. Me enforcaram até desmaiar, na maior covardia. Entortaram meu braço. Eu percebi que eles sentiam prazer em fazer isso.”

Kevin Rodrigues ficou com hematomas espalhados pelo pescoço | Foto: Reprodução

Enquanto Kevin tenta se desvencilhar do golpe, Poeta Gimenez pede para que o agente o solte, dizendo: “você vai matar ele”. Pouco depois, outro trecho do vídeo mostra o jovem no chão, praticamente desacordado e com diversos seguranças ao redor. Nesse mesmo instante um dos funcionários vai de encontro a poeta e afirma: “você dá problema direto aqui”.

A agressão no metrô não foi a primeira sofrida por Poeta Gimenez como artista de rua. Há um ano a Ponte já havia noticiado um caso de homofobia contra ela protagonizado por seguranças ferroviários da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Durante o vídeo mais recente, a poeta ressaltou que “artista de rua não é bandido”, e que já está cansada fisicamente e mentalmente de tanta perseguição enquanto trabalha. “Eu paguei caro na minha caixa para eles quebrar. Eles machucaram minha mente. É difícil eu estar no vagão com a mente desse jeito. Eu achando que tem um guarda atrás de mim, que ele vai me agredir, que vai fazer alguma coisa comigo. Eu estou cansada dessa opressão”. A Ponte não conseguiu contato com com Poeta Gimenez ou Kevin Rodrigues.

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Por meio de nota, o Metrô de São Paulo disse que “sempre apoia a cultura e é reconhecido por suas exposições artísticas e musicais, de forma coordenada para não atrapalhar a circulação dos trens e o fluxo de passageiros. As regras de uso do metrô são claras e não é permitido pedir dinheiro aos passageiros. A Companhia vai analisar a atuação dos seguranças, como realiza em todas as abordagens, para verificar a conduta e eventuais necessárias orientações e correções”.

Reportagem atualizada às 16h30 do dia 5/6/2021 para incluir posicionamento do Metrô de SP

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