Sol, Luciana, Elidia, Massacres de Suzano e Realengo: as 23 vítimas do terrorismo misógino

    Em dez anos, matadores misóginos deixaram 23 mortos em atentados aplaudidos como exemplos a serem seguidos em fóruns anônimos. “Alguém vai querer repetir esses ataques”, diz Lola Aronovich, professora perseguida por esses grupos

    A streamer Ingrid Bueno, também conhecida como Sol | Foto: Reprodução / Instagram

    O assassinato a facadas da streamer Ingrid Bueno, conhecida como Sol, 19 anos, em 22 de fevereiro, em Pirituba, zona norte da cidade de São Paulo, foi celebrado como uma conquista e um exemplo a ser seguido em grupos de ódio que seguem ocupando espaços de disseminação de ódio.

    Por conta do crime e da sua relação com o submundo da internet, o acusado teve seu nome alçado nos fóruns e grupos de ódio como um exemplo a ser seguido. Horas após a descoberta do assassinato,  o caso já era motivo de piada, descrédito e machismo em ambientes virtuais. 

    “Uma putinha aí que mataram”, escreveu de forma jocosa um usuário anônimo em um grupo de WhatsApp, dizendo que até estava com uma certa pena da jovem. “Mas aí vi que era puta. Mereceu demais”. Outro integrante desses grupos de ódio, mais especificamente do conhecido fórum de ódio Dogolachan, também falou sobre o crime. “Guilherme é nosso irmão, soldado que jamais deve ser esquecido!”, afirmou.

    Na denúncia do Ministério Público de São Paulo, documento ao qual a reportagem teve acesso, o acusado do crime, Guilherme Alves, de 18 anos, disse que vinha há semanas planejando o assassinato e que a vítima teria “atravessado o seu caminho”. Ele ainda confessou o crime ao seu advogado, que está aguardando o resultado do laudo de insanidade mental.

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    O jovem, que também era gamer, disse que planejava um ataque contra o cristianismo e que suas razões estavam explicadas em um livro que estaria sendo compartilhado nas redes. A Ponte teve acesso ao arquivo tanto da versão anexada na investigação oficial quanto da versão que foi distribuída em aplicativos de mensagens. Supostamente escrito por Guilherme, o texto desenvolve de forma confusa suas razões, sendo escrito sob a perspectiva do autor já ter cometido um atentado.  

    “Participo de um grupo de soldados que estão preparados para fazer a mesma coisa que eu efetuei”, escreve. “Eu não sou o líder do meu grupo, sou apenas um soldado que cumpriu a missão em que lhe [sic] foi designada”. 

    Esse “exército” que o autor cita é unido por uma ideologia violenta e misógina, mas é ao mesmo tempo desorganizado e caótico. É formado por pessoas (majoritariamente homens) que não se conhecem, mas que se alimentam, retroalimentam e se inspiram nessa subcultura que preza do anonimato para cometer crimes, especialmente contra mulheres. 

    Em 2018, um moderador do Dogolachan atirou pelas costas e matou uma mulher que negou suas investidas. Um ano depois, outra moderadora do Dogolachan se envolveu, junto a seu namorado, em outro assassinato, também de uma mulher. 

    A chacina de Realengo, em 2011, também teve claras intenções misóginas e ligações com as pessoas que viriam a criar o mesmo Dogolachan alguns anos depois. Emerson Eduardo Rodrigues e Marcelo Valle Silveira Mello, criadores do chan, admitiram à Polícia Federal que foram contatados pelo assassino antes do crime. 

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    Em Suzano, 2019, dois ex-alunos de uma Escola Municipal idealizaram e organizaram um massacre, que resultou em oito mortes, no mesmo fórum de ódio. Juntos, esses atentados somaram, no total, 23 vítimas fatais. 15 eram mulheres, ou 65%. 

    A professora universitária Lola Aronovich, que há mais de uma década vem sofrendo ameaças e expondo esses grupos, disse em seu blog que recebeu, ainda no dia 22 de fevereiro, data do crime, um e-mail de alguém que dizia ser o assassino.

    “Entenda o meu lado, não sou um desesperado, sou alguém que pensa e compreende”, escreveu o remetente, afirmando ainda que um fórum pouco conhecido chamado Crazychan teria ajudado e dado apoio. “Um grande líder, Lucy, me apoiou, me mostrou o caminho que eu deveria seguir”. 

    O e-mail que Lola recebeu foi registrado às 23h09 da segunda-feira, horário em que Guilherme já estava sob custódia da polícia. O serviço de e-mails usado por quem mandou a mensagem, o Guerrilla Mail, atualmente não permite agendamento de mensagens.

    Enterro de vítima do Massacre de Suzano, de 2019, comemorado nos chans | Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo

    Entretanto, existe a possibilidade de que um cúmplice virtual de Guilherme possa ter ajudado na divulgação de seu crime, o que incluiria mandar o email para a professora e outros grupos. Uma postagem – já apagada – em um chan descendente do Dogolachan afirma, sem provas, ter ajudado o acusado na organização do assassinato e na divulgação dos seus atos, incluindo também a divulgação de seu livro, que teria sido recebido em formato aberto doc, facilmente editável. Nas redes sociais a publicação circulou em formato PDF, que é um tipo de arquivo fechado para edições.

    “Nada impede que alguém esteja querendo inclusive atrelar outras pessoas e chans na história”, diz Lola.

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    A reportagem da Ponte recebeu diversos relatos de infiltrados no Crazychan, grupo que supostamente teria ajudado Guilherme. Criado no Whatsapp em 2016 e administrado por usuários que mantém grupos de carders (clonadores de cartão de crédito) em outros aplicativos de mensagens, o grupo é palco de trocas de mensagens que vão desde misoginia, ameaças contra pessoas e até troca de imagens, vídeos e links com conteúdo de pornografia infantil. 

    As informações obtidas pela reportagem, porém, não permitem concluir se Guilherme faz ou fez parte do referido grupo nem de outros fóruns de ódio, algo que é reforçado por João Marcos Alves Batista, advogado de Guilherme. “Ele confirmou que não participava de nenhum fórum na deep web. Estamos esperando a quebra do sigilo telefônico dele para comprovar essa informação”.

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    Mesmo após serem ligados ao crime, os relatos e prints passados à reportagem mostraram como o grupo Crazychan e outros chans trataram com descaso a morte da jovem, fazendo memes e stickers com seu rosto e mentindo sobre uma suposta relação da vítima com os planos de Guilherme. Outros channers já prometeram ações semelhantes com outras mulheres gamers e continuaram as ameaças contra Lola.

    “Nossa que ódio. Vou matar ela, sério” disse um usuário do Crazychan de nome Epysp, reclamando que teria sido exposto pela professora em um artigo. A Ponte observou esse mesmo usuário dizendo que teria ligado para Lola para ameaçá-la, algo que foi confirmado pela própria em seu blog. “Ameacei pra krl [sic]”, confirmou o usuário.

    Novos ataques

    A blogueira considera que, como foi o caso do Massacre de Suzano, há uma inspiração desses ambientes, mesmo que indireta, nesse novo ataque, e que outros atentados semelhantes podem acontecer. 

    “Sem dúvida que pode se repetir. Ele estava usando uma máscara muito parecida com a máscara usada pelo Guilherme no Massacre de Suzano. Não é coincidência. Ele provavelmente foi inspirado por Suzano. Todos eles frequentam os mesmos lugares, esses chans, essas comunidades tóxicas, um inspira o outro”, reflete a professora, que relembra que após o atentado os chans ficaram eufóricos, prometendo novos ataques. 

    “Eles felizmente não aconteceram, mas foi importante esse marco. E com a flexibilização do porte e posse de armas promovido pelo presidente que eles amam, o Bolsonaro, é uma festa né? Ainda mais para quem fantasia com crimes como eles. Não sei como não houve novos massacres”.

    Postagem no fórum Dogolachan sobre o assassinato | Foto: Reprodução

    O sociólogo holandês Ramon Spaaij já falou à Ponte sobre como ambientes tóxicos podem influenciar atos de violência em 2019, afirmando que, ao reforçar um ambiente radicalizado e espalhar mensagens de ódio através de um discurso polarizado, não é possível saber quem nem onde você vai influenciar e atingir.

    “Alguns indivíduos irão se inspirar nas suas palavras e sair das ideias rumo à ação”, apontou à época o especialista, apresentando o conceito de terrorismo estocástico, que é quando há manipulação da comunicação para gerar terror. 

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    Um exemplo é o do extremista de direita cristão Anders Breivik, citado com admiração justamente por Guilherme segundo depoimento de uma testemunha. Responsável por dois atentados que mataram dezenas na Noruega em 2011, o neonazista se utilizou de um livro e de publicações disseminadas em redes sociais descentralizadas e anônimas para alcançar novas pessoas vulneráveis. Em 2019, o terrorista australiano responsável pelo Massacre de Christchurch afirmou que o norueguês era uma de suas principais influências. Este último inovou ao disseminar um vídeo ao vivo do atentado em um chan.

    “Muitos dos jovens que foram recrutados pelo Daesh (Estado Islâmico) disseram que finalmente estavam sendo inseridos em uma ‘família’”, explica Spaaij. “Isso facilita para que sejam cometidos atos horríveis (…) O que isso pode representar é uma mudança de paradigma no que tange ao terrorismo em sua forma tradicional rumo a um terrorismo quase faça-você-mesmo, com uma ou duas pessoas agindo de forma descoordenada. É, portanto, uma forma diferente, fluida, e talvez por isso muito mais difícil de prever”. 

    MP afasta feminicídio

    A mãe de Guilherme disse à imprensa que jamais imaginaria que seu filho pudesse ser capaz de cometer tal crime. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) pediu o indiciamento do jovem por homicídio qualificado com motivo torpe e por meio cruel, mas o promotor Fernando César Bolque avaliou, em manifestação dentro do processo na terça-feira passada (2/3), que o caso não é feminicídio.

    Para Cristiane Brandão, professora de Direito Penal da UFRJ, é importante observar em casos de violência contra mulheres se há elementos vinculantes para qualificação do crime de homicídio para feminicídio, que é quando o fato das vítimas serem mulheres é fator essencial no crime.

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    “Geralmente é mais fácil que façam essa interpretação quando há uma relação amorosa entre as partes. Mas se houve motivação voltada para matar ela por ela ser mulher caberia a qualificação independente de terem relação íntima ou não”, aponta a jurista, coordenadora do Observatório Latino-Americano de Justiça em Feminicídio, que contextualizou que uma catalogação de dados correta é imprescindível para ter um quadro verdadeiro sobre o crime no país.

    Ameaças ao então deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) | Foto: Reprodução

    “Já há uma deturpação da interpretação do que é feminicídio, e com isso os números passaram a não expor mais a realidade. Então muitas vezes crimes de feminicídio passam despercebidos e parece que os números caíram, quando não é verdade“, conclui Cristiane.

    A Ponte investiga a atividades de grupos como Dogolachan e Crazychan desde 2017, fazendo denúncias e traçando o perfil dos usuários, que são, majoritariamente, homens jovens, geralmente misóginos e com dificuldades de socialização e de relacionamentos no geral.

    A Polícia Federal vive um antigo jogo de gato e rato com esses fóruns. Em alguns casos, teve êxito, como na Operação Bravata que prendeu Marcelo Valle Silveira Mello, um dos criadores do fórum. Ele foi condenado, em 2018, a mais de 40 anos de prisão por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação ao cometimento de crimes – como estupro e feminicídio – e terrorismo cometidos na internet.

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    Em janeiro de 2019, a Ponte descobriu que parte das ameaças de morte que fizeram o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) decidir sair do país eram arquitetadas e saíam do Dogolachan. O grupo também ameaçou figuras conhecidas da direita, como Allan dos Santos e Joice Hasselmann. Mais recentemente, channers atacaram deputadas recém-eleitas.

    Após o Massacre de Suzano, no qual o fórum foi ligado aos assassinos que mataram sete pessoas em uma escola, o procurador federal Daniel de Alcântara Prazeres, do grupo de combate a crimes cibernéticos com enfoque em racismo e pornografia infantil, explicou que um monitoramento qualificado desses lugares não existe por falta de estrutura. O procurador, ele próprio vítima de doxxing nesses fóruns– prática que consiste em escrutinar dados pessoais como CPF, endereço, telefone da vítima e divulgar – disse que a falta de técnicos especializados deixa investigações como essa ainda mais vagarosas.

    Outro lado

    Procurado, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) não se manifestou até a publicação desta reportagem sobre a possibildade de enquadrar o assassinato como feminicídio. Por meio da assessoria de imprensa terceirizada InPress, a Polícia Civil de São Paulo informou em nota que “o caso é investigado por meio de inquérito policial instaurado pelo 87º Distrito Policial. O autor foi preso em flagrante e a Justiça decretou a prisão preventiva dele. Equipe de investigação encaminhou o celular do autor para perícia. Até o momento não houve registro sobre ameaças. Os agentes apuram se há existência de envolvimento de outras pessoas e esclarecer todas as circunstâncias do crime”.

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