Um mês depois, polícia segue sem notícias dos meninos desaparecidos em Belford Roxo (RJ)

27/01/21 por Julia Rafaela Bruce, especial para a Ponte

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As três crianças foram vistas pela última vez no dia 27 de dezembro quando saíram para brincar. Alarmes falsos e até um suspeito pedófilo fazem parte do dia a dia de aflição das famílias que cobram respostas da polícia, que ainda não tem nenhuma informação concreta

Da esquerda para a direita: Alexandre, Fernando e Lucas. Foto: Reprodução/Facebook

Lucas Matheus, 8, seu primo, Alexandre da Silva, 10, e Fernando Henrique, 11, saíram para brincar juntos em um campo de futebol ao lado do condomínio onde moram, no Morro do Castelar, em Belford Roxo, Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, mas nenhum deles voltou para casa. Os meninos estão desaparecidos desde o dia 27 de dezembro de 2020 e ainda não há nenhuma resolução sobre o caso investigado pela Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF), no bairro da Areia Branca, juntamente com o Setor de Descoberta de Paradeiros (DDPA), na Cidade da Polícia, zona norte do Rio. Os meninos teriam saído do local depois para comprar ração de pássaros na Feira de Areia Branca, em uma praça de Belford Roxo, vizinho ao Castelar, mas a polícia revelou que ainda não tem confirmação disso.

De acordo com nota enviada para a Ponte, a Polícia Civil informou que “as investigações e as buscas continuam”. Os agentes realizaram “diligências em cerca de 40 lugares” da capital, de Belford Roxo, dos municípios vizinhos Duque de Caxias e Nova Iguaçu e de outros lugares que as famílias indicaram que os meninos poderiam ter ido. Até agora, imagens de mais de 40 câmeras de segurança que poderiam ter registrado as crianças foram analisadas e foram feitas três operações em Belford Roxo para mapear a área e coletar informações que possam ajudar a localizar os garotos.

Também já foi recolhido o material genético das três mães para o armazenamento em banco de dados e análise de roupas encontradas no apartamento do vizinho, apontado como principal suspeito pelos moradores. O homem, que não teve a identidade revelada, foi levado à delegacia por parentes dos três meninos no dia 11/1 para prestar depoimento, mas segundo nota da corporação, a acusação é falsa e ele não tem qualquer envolvimento com o caso. Em depoimento, ele contou que foi espancado por traficantes do local para confessar o crime.

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Para o delegado e secretário da Polícia Civil do Rio, Allan Turnowski, o fato relatado, somado à queima de um ônibus próximo à DHBF no dia 12 de janeiro, estão servindo como linha de investigação sobre possível participação de traficantes da região no desaparecimento. Ainda em nota, a polícia acredita que os traficantes incitaram a população a atear fogo no ônibus como forma de desviar o foco das investigações. Três pessoas foram presas por policiais civis da 54ª DP (Belford Roxo) durante a ação.

Já o defensor público Fábio Amado, que está prestando assistência às famílias, contou que “foi apresentada uma pessoa que em seu celular havia imagens de delitos contra a criança e adolescente e ela é apontada como um possível suspeito desses fatos”. A delegacia realizou a perícia do aparelho, onde foram encontrados vídeos de pornografia infantil, e o homem foi preso na mesma semana. 

O que aconteceu até agora?

Dois dias depois do desaparecimento de Lucas, Alexandre e Fernando, Rana Jéssica, 30, a mãe do segundo, recebeu informações de que eles foram vistos vendendo bala dentro de um ônibus: “achei bem parecidos, mas não tem como afirmar ainda que eram eles. Disseram que estariam num ônibus da linha 867 ou 367 e que poderiam estar indo à praia com uma pessoa adulta para vender balas”, disse Rana ao jornal comunitário “Notícias de Belford Roxo”. O trajeto da linha 867 é de Campo Grande a Barra de Guaratiba, com circulação somente pela zona oeste da cidade com a distância de aproximadamente 2h15min de ônibus de Belford Roxo para Campo Grande. Já a linha 367 vai de Realengo, zona oeste, até a Praça XV, Centro do Rio e é distante cerca de 2 horas de Belford Roxo. Naquele dia (29/12), o dono de um estabelecimento informou aos policiais que tinha visto as crianças.

O governador em exercício do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), anunciou um reforço da equipe que investiga o sumiço no último dia 6. “Como pai, imagino o quão difícil é este momento. Fiquem atentos às crianças nas rua. Ajude-nos a localizar Lucas, Alexandre e Fernando”, disse na ocasião. 

O Disque Denúncia já recebeu 51 ligações de denúncias sobre o caso até esta quarta-feira (27/1) e todas estão sendo encaminhadas para a DHBF, mas a comunicação da delegacia com o Disque Denúncia está em sigilo. Além do Disque Denúncia, o programa SOS Crianças Desaparecidas da Fundação para Infância e Adolescência (FIA) recebeu mais de 70 denúncias até a primeira semana de janeiro, 3% falsas e a maioria delas inconsistentes.

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O gerente da Fundação Para Infância e Adolescência (FIA), Luis Henrique Oliveira, que atua há 25 anos no programa SOS Crianças Desaparecidas, revela que o caso desses três meninos é “enigmático”, pois em nenhum momento foram encontradas imagens das crianças durante avaliação das câmeras que estavam ao redor da comunidade. Luis contou que a Fundação tem se comunicado diretamente com as famílias, encaminhando imagens de crianças parecidas aos familiares e que, desde o início, estão fazendo a mobilização nas redes sociais e reforçando a divulgação para os veículos de comunicação.

Para ele, o maior desafio do desaparecimento no Brasil é justamente a falta de efetivação de um conjunto de ações no processo da justiça brasileira. “O desaparecimento não está previsto no Código Penal, somente no Código Civil. A gente precisa ter legislação própria, o que depende também muito da evolução de ferramentas dos registros de ocorrência policial para virar inquérito no processo penal. Tem que ter prova e outras condições, mas é preciso chamar atenção da legislação brasileira sobre o desaparecimento”, atenta.

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Desde a segunda semana deste mês, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), ligado ao estado do Rio de Janeiro, e a Coordenação de Infância da Prefeitura de Belford Roxo estão acompanhando o caso e exigem que qualquer informação, fotos, características físicas sobre as crianças desaparecidas sejam encaminhadas para órgãos como a Fundação para Infância e Adolescência (FIA), portos, aeroportos e polícias Federal e Rodoviária Federal. A equipe da Ponte entrou em contato com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SEMASC) e a de Saúde (SEMUS) que ainda não estão prestando ajuda às famílias. A SEMUS informou que “o prefeito Waguinho (MDB) prestou atenção ao caso e, no momento, aguardamos ordem do prefeito”, mas continuam acompanhando. Já a SEMASC não retornou até a publicação desta reportagem.

Na manhã do dia 15/1, agentes do Batalhão de Choque (BPChq) da Polícia Militar realizaram uma operação policial na comunidade do Castelar em busca dos três meninos, contudo a ação iniciou com confronto após entrada dos policiais no local e terminou com três suspeitos baleados, três armas e entorpecentes apreendidos. Também fizeram parte da equipe de busca agentes do 2º Grupamento de Socorro Florestal de Magé (GSFMA), município da Baixada Fluminense, e cães farejadores.

A aflição das famílias

De acordo com os parentes das três crianças, elas tinham o costume de brincar sozinhas pela manhã durante o momento de pandemia sem as aulas da escola, mas sempre retornavam para almoçar por volta das 14h.

Os familiares estão sendo levados por pistas falsas a todo o momento para diferentes lugares, como Campo Grande e Santa Cruz (zona oeste), Central do Brasil (Centro do Rio), e Flamengo (zona sul). No dia 06/1, a mãe de Alexandre, a avó e o tio das crianças chegaram a sofrer um acidente de carro na Rodovia Presidente Dutra durante busca pelos meninos, quando receberam uma informação de que eles estariam em uma sorveteria em Nova Iguaçu. Um dos pneus do veículo furou e ele capotou, mas os parentes tiveram ferimentos leves e foram atendidos em uma unidade de saúde de São João de Meriti.

Mãe de Fernando Henrique, Tatiana da Conceição Ribeiro, 31, está tendo problemas de insônia e não consegue se alimentar. Um dia antes da operação ela se dirigiu à DHBF junto com a avó de Lucas e Alexandre, Silvia Regina, para tentar saber notícias dos meninos. Ela também entregou uma sacola com roupas sujas de sangue encontradas por moradores do Castelar na casa do homem acusado e não identificado. Tatiana, que tem mais dois filhos, expõe sua dor: “Eu já não sei mais se meu filho está vivo ou não. Fico o tempo inteiro chorando em casa. O [filho] menorzinho não para de perguntar pelo Fernando”, conta a dona de casa. Alexandre também tem uma irmã menor e a mãe, Rana Jéssica, 30, disse que os ambos são muito apegados: “ela fica dizendo  que ele vem, que vai chegar e que vai buscar o irmão.”

Em entrevista ao jornal O Globo, publicada no dia 14/1, Silvia Regina, contou que recebeu uma informação de que Fernando foi “roubar um passarinho e o mataram a pauladas”. Já os outros dois meninos teriam “corrido e levado tiro pelas costas” e, depois, os corpos foram jogados em um rio, disse a avó, informando também que passa tudo para o delegado responsável.

Camila Paes, 29, mãe de Lucas, também foi vítima de uma tentativa de extorsão. Sua amiga recebeu uma mensagem de um desconhecido dizendo saber do paradeiro do filho, mas pedia dinheiro pela informação. “Quando ela pediu pra ele mandar uma foto do menino, o homem bloqueou ela”, disse. Um print da conversa foi enviado para a polícia. As duas irmãs mais novas de Lucas também perguntam constantemente por ele, e Camila afirma que não tem mais contato com o pai. Mesmo sem a assistência das Secretarias Municipais de Assistência Social e de Saúde, a Fundação para Infância e Adolescência (FIA) tem dado apoio social e psicológico para as três famílias. 

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De acordo com estatística atualizada divulgada pelo programa SOS Crianças Desaparecidas e informações cedidas durante entrevista com o coordenador do programa, Luis Henrique Oliveira, o número total de jovens desaparecidos no Brasil hoje são 585, sendo 78 menores de idade e 20,3% negros. Números do Instituto de Segurança Pública (ISP) apontam que entre janeiro e novembro de 2020 foram registrados mais de 3 mil casos de desaparecimento no Estado do Rio de Janeiro.

A Lei federal 11.259/2005 acrescenta um dispositivo ao Estatuto da Criança e do Adolescente que determina que é preciso dar prioridade para a investigação imediata em caso de desaparecimento de criança ou adolescente e que todos os órgãos competentes deverão comunicar dados necessários de cada desaparecido para companhias de transportes, portos, aeroportos e Polícia Rodoviária.

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Nos dias 8 e 13/1, o Fórum dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fórum DCA RJ), emitiu duas notas públicas em suas redes sociais sobre o caso e reconhece que deve haver “mais rapidez e efetividade na apuração dos fatos e na conclusão das investigações”. No dia 7/1, mais de 40 entidades que fazem parte do Comitê Para Prevenção de Homicídios de Adolescentes no Rio de Janeiro e que trabalham na luta por igualdade, equidade de gênero e justiça racial, pediram em uma carta pública ao governador em exercício Cláudio Castro (PSC) a realização imediata e efetiva do caso. Ainda se colocaram à disposição para prestar informações e esclarecer notícias falsas sobre o desaparecimento.

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