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Conheça candidaturas comprometidas com a agenda Marielle Franco

07/11/20 por Caê Vasconcelos

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Mais de 700 pessoas assinaram o compromisso de seguir os passos de Marielle Franco em 270 cidades do país; entrevistamos três delas: Erika Hilton (PSOL-SP), Jota Marques (PSOL-RJ) e Maria Marighella (PT-BA)

Da esquerda para direita: Erika Hilton, Jota Marques e Maria Marighella | Fotos: Reprodução/Instagram

753 candidaturas se comprometerem integralmente com os compromissos em pautas antirracistas, feministas e populares a partir do legado da vereadora Marielle Franco, assassinada na noite de 14 de março de 2018, para as eleições de 2020. São nomes de homens e mulheres, cisgêneros e transgêneros, pessoas não-binárias, negras, indígenas e LGBTs de 270 cidades brasileiras. A lista completa está disponível no site do Instituto Marielle Franco.

A agenda consiste em sete pautas de Marielle que as candidaturas se comprometeram a apoiar: justiça racial e defesa da vida, gênero e sexualidade; direito à favela; justiça econômica; saúde pública, gratuita e de qualidade; educação pública, gratuita e transformadora; e cultura, lazer e esporte. Além de sete práticas: diversificar, não uniformizar; ampliar, não limitar; honrar, não apagar; coletivizar, não individualizar; puxar, não soltar; escancarar, não se encastelar; cuidar, não abandonar.

À Ponte, a professora Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco e irmã da vereadora, explica como o instituto chegou na agenda. Foram analisadas produções legislativa de Marielle, assim como falas na Câmara e em outros discursos. O instituto também entrevistou algumas de ex-assessoras da vereadora, de diferentes áreas do gabinete, e analisou as justificativas dos projetos de lei.

Veja a lista completa e saiba se existem candidaturas comprometidas na sua cidade

Com isso, o Instituto Marielle Franco chegou nas sete pautas e práticas. “Selecionamos aquelas candidaturas que indicaram se comprometer com todo o legado da Mari, porque o compromisso deve ser total e não parcial”, pontua Anielle.

Anielle conta que, para a família, essa é a certeza de que o legado da Marielle Franco será fortalecido e expandido com o trabalho de centenas de pessoas que querem ocupar o espaço institucional.

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“É muita responsabilidade, mas o nosso intuito com a construção da agenda era justamente fornecer as ferramentas e buscar o compromisso de candidatos e candidatas com o legado da minha irmã, para que as palavras se tornassem práticas e ações”.

Instituto Marielle Franco que manter o legado da vereadora vivo | Foto: Reprodução/Facebook

Selecionamos três candidaturas, com diferentes recortes de gênero, para dar um panorama da diversidade dos que se comprometem com a agenda: Erika Hilton, travesti negra e periférica, concorre a uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo pelo PSOL, partido de Marielle; Jota Marques, jovem negro, professor e morador da Complexo Cidade de Deus, busca uma vaga na Câmara Municipal do Rio de Janeiro também pelo PSOL; Maria Marighella, mulher negra e mãe, almeja uma vaga na Câmara Municipal de Salvador pelo PT.

Erika Hilton – São Paulo

Erika Hilton é candidata pelo Psol de São Paulo | Foto: Reprodução/Instagram

Aos 27 anos, a ativista Erika Hilton tenta pela segunda vez uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo, a primeira tentativa foi em 2016. Caso eleita, Hilton ocupará uma cadeira ocupada apenas duas vezes por mulheres negras e será a primeira travesti parlamentar da cidade paulista.

Foi a urgência e necessidade de avançar um projeto político, sonhado na primeira candidatura e fortalecido durante a passagem de quase dois anos pela Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), onde atuou como co-deputada estadual pela Bancada Ativista, que motivou a jovem a tentar novamente a Câmara.

“Eu entendi que era importante ampliar essa zona de atuação e continuar em contato com a Bancada Ativista e a Mandata Quilombo, da Erica Malunguinho, potencializando esse boom que tivemos em 2018, ocupando outros espaços”. 

O projeto político que pretende construir, caso eleita, é o de pessoas negras e transvestigêneres (transexuais e travestis). “Quando a gente pensa política e quando pensamos a sociedade, pensamos de uma forma ancestral”.

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As principais bandeiras de Erika Hilton nessa candidatura seguem os moldes Angela Davis de pensar: gênero, raça e casse. “Eu sou essas bandeiras, eu sou um corpo que anuncia a negritude, eu sou um corpo que anuncia a travestilidade, que faz política a partir desses corpos e desses demarcadores”.

“Dentro dessas bandeiras, vamos tratar de saúde, educação, direito à cidade, juventude, de moradia, porque todas essas pautas estão ligadas às questões de raça, gênero, sexualidade e classe. A gente tem muito dinheiro na cidade, mas muita gente pobre e em situação de rua”, completa Hilton.

A construção do programa de governo, aponta, foi coletiva: com ativistas, técnicos e especialistas de diversos setores da sociedade civil. “Não é a candidatura da Erika Hilton, é a candidatura de mulheres trans, travestis, homens trans, pessoas não-binárias, pessoas LGBTs, mulheres trabalhadoras negras e periféricas, que não se veem representades na política institucional e acreditam que a partir da nossa luta coletiva a gente pode fazer qualquer tipo de transformação” .

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A ideia central, explica, é que corpos transvestigêneres e negros possam ter direito ao trabalho, à família, ao estado, à religiosidade. “Isso é o que me impulsiona a trabalhar todos os dias. Que sejamos enxergados como corpos humanos. O movimento negro foi utópico por 400 anos e hoje estamos aqui assinando a agenda Marielle Franco, de uma parlamentar negra”.

Jota Marques – Rio de Janeiro

Jota Marques é candidato pelo Psol do Rio de Janeiro | Foto: Reprodução/Instagram

Morador da Cidade de Deus, favela localizada na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, vizinha aos bairros Barra da Tijuca e Jacarepaguá, o professor Jota Marques, 28 anos, também construiu sua candidatura de forma coletiva.

“Assim como toda a minha trajetória foi. Desde os movimentos sociais de base, passando pelas organizações do terceiro setor que passei, até a fundamentação da Marginal, que é o coletivo que eu coordeno, passando também pela decisão de ser conselheiro tutelar de Jacarepaguá, e então candidato a vereador”. 

Ele conta que sua campanha tem sido um sonho em meio ao caos. “do fundamentalismo religioso com roupa de bolsonarismo que comanda a política nacional nesse momento”.

“Esperávamos a possibilidade de uma recusa de um projeto mais radical à esquerda, que o tom das pessoas talvez fosse de negativa à construção de um projeto político socialista, de participação popular, mas tem sido o contrário”, avalia.

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O que tem encontrado nas ruas é a receptividade e o retorno positivo das pessoas. “Elas não necessariamente vão votar em nós, sonhar uma outra cidade. Uma cidade que cuida das pessoas efetivamente. Tem sido bonito ter esse carinho e essa escuta da possibilidade de um Rio de Janeiro mais parecido com os cartões postais. Estamos muito estimulados todos os dias porque as pessoas estão nos estimulando a viver um novo projeto”.

E é para essa população que Jota Marques pretende atuar dentro da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, mesmo local em que Marielle Franco atuou de 2017 até o dia que teve sua vida interrompida: “Esse mandato funcionará no passo dos anseios, dos desejos, das dores, das projeções, dos problemas, das soluções do povo trabalhador, do povo de favela, do povo da periferia no Rio de Janeiro”.

“Tanto Marielle quanto a minha trajetória na favela me motivam a ser candidato e eu tenho um compromisso com aqueles que aqui estão, com aqueles que vieram antes de mim e com aqueles que partiram por causa da violência, do projeto político de poder dos fascistas”.

Maria Marighella – Salvador

Maria Marighella é candidata à vereadora pelo PT da Bahia | Foto: Reprodução/Instagram

Neta de Carlos Marighella, guerrilheiro e deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) baiano, assassinado há 51 anos durante a ditadura militar, por quem foi considerado inimigo “número um”, a atriz Maria Marighella acredita que a grande responsabilidade dessas eleições municipais são unificar o campo progressista do país.

“Uma companheira de São Paulo, Luna Zarattini, fala uma coisa que eu adoro: vamos precisar juntar o buraco da rua com o buraco do país. Eu sinto e tenho percebido que é isso mesmo: atuar nas agendas mais concretas da cidade até dimensões da grande política do país, do modelo de desenvolvimento, da reconstituição de um projeto por soberania do povo”.

Assim como as duas candidaturas anteriores, a de Maria Marighella não poderia ser diferente: é construída de forma coletiva. “Minha candidatura nasce de uma movimentação cidadã chamada Manifesta Coletiva, que pretende ser uma ocupação da política institucional”.

“São pessoas de diversos campos, da cultura, ativistas feministas, antirracistas, das universidades, da juventude, pessoas que pensam na mobilidade e de diversos campos, que participam da vida política da cidade, reconhecem que não têm um espaço político para elas e se organizam para ter um espaço permanente de ocupação”.

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“Absolutamente atravessada pela história de Marighella”, Maria afirma que, pela ancestralidade e história de seu avô, tem a responsabilidade pública de levar essa memória adiante. “Marighella nos ensina não só a reagir, mas sobre tudo de imaginar saídas. O capitalismo é uma máquina de moer gente e a gente pensa outras engrenagens, com lutas feministas, antirracistas, contra LGBTfobia, pela cultura e pela juventude”.

O ano mais importante da sua trajetória política, define Maria, foi 2016. “Aquele 17 de abril de 2016, em que [Jair] Bolsonaro [então deputado federal] dedica o voto dele ao [coronel Carlos Alberto] Brilhante Ustra, que é o torturador da presidenta [Dilma Rousseff], da mulher que estava ali sendo objeto do impeachment, foi um dia muito trágico para mim”.

“Aquilo já seria um escárnio da democracia. Aquele dia Bolsonaro deveria sair daquela plenária preso, por romper com os acordos internacionais que o Brasil é signatário. Aquele dia foi o dia que eu vi o tamanho da crise colocada na política brasileira e como aquelas forças estavam avançadas”.

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Também foi naquele ano, em que ativistas da cultura tomavam os prédios das secretarias de cultura, mulheres tomavam as ruas, na Primavera Feminista, estudantes secundaristas ocupavam as escolas públicas, que Maria conheceu Marielle Franco.

“Nós nos conhecemos em um Ocupa Política, muitas pessoas saíram desse movimento, como Áurea Carolina, Talíria Petrone, uma série de mulheres nascem desse movimento. Marielle está entre os grandes nomes nascidos nesse contexto”, conta.

“[A morte de] Marielle representa a força violenta, autoritária, que quer interditar esse tipo de projeto. É nesse contexto que eu assumo a agenda Marielle, assumo o compromisso com o meu tempo, com as agendas que estão em curso. São movimentos diferentes, histórias distintas, das quais eu tenho vínculos diferentes”.

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