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Gabriel, 18 anos, sumiu quando ia visitar a namorada. Corpo foi achado nove dias depois

16/06/20 por Caê Vasconcelos e Ícaro Carvalho

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“Estou revoltada com a forma que meu filho foi morto”, desabafa Priscila; ativistas levantam a tag #QuemMatouGabriel em busca de respostas

Giovane Gabriel de Souza Gomes, 18 anos, desapareceu no dia 5 de junho, quando saiu de casa para visitar a namorada | Foto: arquivo pessoal

Há 10 dias, Giovanne Gabriel de Souza Gomes, 18 anos, saiu de casa, em Guarapes, periferia da zona oeste de Natal, Rio Grande do Norte, para visitar a namorada em Parnamirim, Grande Natal. De bicicleta, ele demoraria cerca de 1h para pedalar os 11 km. Mas ele não chegou ao destino e nunca mais foi visto.

Segundo Priscila Souza, mãe de Gabriel, ele saiu cedo de casa, por volta das 5h30, vestindo uma bermuda e uma camisa simples, em direção à casa da namorada. Seis horas depois, Priscila recebeu a ligação da jovem, perguntando se tinha notícias de Gabriel.

Imediatamente, as buscas da família começaram pela região. Foram dias e dias sem uma resposta sequer. Na última semana, encontraram as sandálias que Gabriel usava e sua bicicleta, em um área de vegetação próxima da casa da namorada do jovem.

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Na manhã do último domingo (14/6), receberam a notícia de que precisavam reconhecer um corpo, já em decomposição e com um tiro na nuca, encontrado em um terreno baldio em São José de Mipibu, também na Grande Natal, cerca de 38 km de sua casa.

Na noite desta segunda-feira (15/6), os exames periciais do Itep (Instituto Técnico-Científico de Perícia) apontaram que o corpo é de Gabriel. Em nota, assinada junto com a Polícia Civil do RN, o Itep afirma que a identificação é feita em comparação de impressões digitais constantes nos registros no instituto.

Pela manhã, os pais de Gabriel, Priscila Souza e Jeová Gomes, reconheceram o corpo do filho a partir das roupas e de um relógio no pulso, dado de presente a Gabriel pelo pai. De acordo com informações obtidas pelos familiares no Itep, o corpo foi encontrado com um “enforca-gato”, aparato utilizado para amarrar as mãos.

Ao longo da tarde de domingo, depois que os familiares afirmaram que o corpo encontrado era de Gabriel, a hashtag #JustiçaPorGabriel e “Quem matou Gabriel” se destacou entre os assuntos mais falados do Twitter. Ela foi levantada, inicialmente, por ativistas dos movimentos negros na rede.

Em entrevista à Ponte, Priscila desabafou sobre a morte do filho. “Foi uma execução, atiraram na cabeça dele por trás”. A mãe conta que o filho saiu de casa com os documentos, mas que sua carteira e o celular não foram encontrados. Ela acredita que ele chegou no bairro onde a namorada mora, já que sua bicicleta foi encontrada perto do local do crime.

Familiares de Geovane Gabriel protestam e pedem justiça | Foto: Mariana Ceci/Ponte Jornalismo

Familiares divulgaram nas redes sociais que testemunhas afirmaram que viram a polícia levando Gabriel. Questionada, a mãe disse que moradores a procuraram para contar sobre a abordagem. Ela declarou que a família da namorada não gostava do relacionamento dos dois.

“A revolta é saber quem fez isso. Ele não tinha envolvimento com nada, não tinha passagem pela polícia. Se ele fez alguma coisa, tinha que ser preso, não executado”, lamentou.

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Em protesto ao assassinato de Gabriel, um ato foi realizado em frente ao Centro Municipal de Educação Infantil Marilanda Bezerra, na zona oeste da cidade. Familiares e amigos de Gabriel pediram justiça pelo caso. “Quem matou Gabriel?”, gritavam os manifestantes.

Centenas de pessoas ocuparam às ruas do Guarapes, bairro de Gabriel, que fica em cima de um morro, às margens do Rio Potengi. “Isso aí é para você ver que meu filho era querido por todos”, lamentou o pai, Jeová Gomes, ao observar o ato.

Familiares e amigos de Gabriel protestaram contra a morte do jovem | Foto: Mariana Ceci/Ponte Jornalismo

“No sábado, achamos a sandália dele, em frente a uma trilha que tem perto da casa da namorada. No domingo, encontramos a bicicleta na mata. Achávamos que o corpo estivesse lá. Muita gente daqui foi lá fazer as buscas”, explicou Priscila à Ponte.

Pai, mãe e familiares contam que Gabriel não tinha inimigos e era uma pessoa tranquila e querida onde morava. “Meu filho não tinha inimizades com ninguém”, contou Jeová.

Segundo os familiares, Gabriel tinha o sonho de ser militar e chegou a fazer um curso pré-militar para alcançar seu objetivo. Morando com a mãe e o padrasto, ele trabalhava como auxiliar de pedreiro.

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A passeata contou com carros de som, cartazes e motos que promoveram um “buzinaço” pelo bairro. Com ruas estreitas, as aglomerações foram inevitáveis na manifestação. Idosos, pertencentes ao grupo de risco para a Covid-19, saíram às portas de suas casas e gritavam “justiça” enquanto o cortejo passava pelas ruas do Guarapes.

Em determinado momento do ato, os organizadores perguntaram ao microfone: “Quem aqui era amigo de Gabriel?”. Todos ao redor levantaram as mãos.

Manifestantes carregam cartazes: “A luta agora é por justiça” | Foto: Mariana Ceci/Ponte Jornalismo

Além da presença da comunidade, movimentos estudantis, sociais e alguns parlamentares eleitos do RN, como a deputada federal Natalia Bonavides (PT) e o deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL), também participaram da manifestação.

“Meu sentimento é de dor, mas é mais de revolta. Estou revoltada com a forma como meu filho foi morto. Ele foi morto com um tiro de pistola na cabeça. Meu filho não merece isso. Quem pegou meu filho, pegou sabendo o que ia fazer. Era pra matar”, lamentou a matriarca.

O que diz o Governo

A governadora Fátima Bezerra (PT) se manifestou em suas redes sociais no último domingo (14/6). Bezerra afirmou que cobrará empenho nas investigações.

“Falei com Priscila, mãe do menino Gabriel, um jovem do bairro Guarapes que estava desaparecido desde o último dia 4 e cujo corpo foi encontrado hoje [domingo], infelizmente sem vida. Expressei minha indignação e minha solidariedade à família e aos amigos de Gabriel”, disse a chefe do Executivo estadual em sua conta no Twitter.

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“E disse a ela: já entrei em contato com nossas forças de segurança, com a delegada-geral Ana Cláudia e determinei que todo o empenho seja feito no processo de investigação, todo o rigor. Nossa juventude não merece um destino tão cruel”, acrescentou a governadora.

À Ponte, a Polícia Civil disse que as investigações estão sob sigilo, mas que são conduzidas pela DECAP (Delegacia Especializada Polinter e Capturas), já que o caso começou com um desaparecimento. Apesar da confirmação da morte de Gabriel, o caso ainda não foi remetido ao DHPP (Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa).

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