‘Isso não pode ficar impune, vou honrar o que meu filho era’

Marcelo Fernandes de Carvalho, pai de João Victor, desabafa sobre morte ocorrida há exatamente um ano na porta do Habib’s Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo; caso segue sem solução e vida de garoto inspira livro

João Victor morreu há exatamente um ano | Foto: arquivo pessoal

Desde o dia 26 de fevereiro de 2017, a rotina de Marcelo Fernandes de Carvalho mudou drasticamente. Antes, o catador de recicláveis conseguia seu sustento e o dos dois filhos ao lado de João Victor, de 13 anos. Os dois saíam de manhã para coletar materiais e garantir o mínimo necessário para viver. Há exatamente um ano, o companheiro não está mais ao seu lado e buscar justiça passou a ser a grande motivação de Marcelo. João Victor morreu vítima de uma parada cardiorrespiratória após ser arrastado por dois funcionários em frente ao Habib’s, na Vila Nova Cachoeirinha, bairro da zona norte da capital paulista.

“Não consigo nem trabalhar direito. Imagina: você vai e passa no lugar em que seu filho foi arrastado, massacrado? Não pode ficar impune, vou honrar o que meu filho era. Não era vagabundo, nunca matou ninguém. O João era apenas uma criança, não tinha pensamento errado assim. Não é sério o que fizeram”, desabafa Carvalho. “Fiquei triste desde então. É ruim perder um filho, só éramos eu, ele e minha menina. Se fosse de morte natural, Deus levasse por conta própria, tudo bem”, segue.

No dia 26 de fevereiro, João Victor estava em frente ao Habib’s pedindo dinheiro e comida para os clientes quando se desentendeu com um segurança e o gerente do local. Com um pedaço de pau na mão, o garoto é perseguido pela dupla após bater em um carro parado no estabelecimento. Imagens de câmera de segurança mostram o momento em que a dupla arrasta o garoto e o colocam, já desacordado, no chão.

Dois laudos periciais feitos no corpo de João Victor apontaram que a causa da morte foi uma parada cardiorrespiratória devido ao uso de drogas: cocaína e lança perfume, versão questionada pelos advogados da família. Testemunhas afirmam que os homens agarraram e agrediram o menino depois de correr alguns metros, dando nele um “soco na cabeça”. Após um ano, o caso está em aberto.

Laudos do IML (Instituto Médico Legal) concluíram que a causa da morte de João Victor foi uma convulsão que gerou “falta de oxigenação em decorrência de um infarto pela ingestão de substâncias químicas”. Foram encontrados tricloroetileno e clorofórmio — base do lança-perfume — e traços de cocaína na necropcia feita no corpo do garoto. Exame feito após exumação, passado um mês da morte, confirmou o primeiro resultado.

O perito contratado pela família rebate o documento. Primeiro, questiona a velocidade para comprovar cocaína no sangue, exame pronto em um dia e, segundo ele, que leva “de 25 a 35 dias para ser concluído”. Também pontua que foram encontrados restos de alimentos nos brônquios de João Victor, e isso acontece quando “se faz um esforço muito grande e se tem um refluxo e retorna nas vias respiratórias”. Por fim, critica a indução de tricoloetileno e clorofórmio serem cocaína. “Essas substâncias estão presentes em colas de sapateiro, e crianças de rua cheiram cola pra amenizar a fome”, diz a defesa.

A Ponte Jornalismo entrou em contato com o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) para questionar sobre a demora dita pelo advogado da família envolvendo o processo. Contudo, a assessoria do Tribunal respondeu que “o processo indicado está em segredo de Justiça. Desta maneira, não temos informações disponíveis”, conforme nota enviada.

Familiares fizeram protesto no Habib’s | Foto: Daniel Arroyo/Ponte.org

A reportagem questionou a SSP-SP (Secretaria da Segurança Pública de São Paulo) através de sua assessoria de imprensa terceirizada, a CDN Comunicação, sobre o inquérito na Polícia Civil. Não houve resposta até a publicação desta reportagem sobre o prazo para entrega e o que faz com que as investigações não estejam concluídas até o momento. Enquanto isso, Marcelo Fernandes de Carvalho continua esperando justiça.

“O Habib’s nunca me deu nada, só deram risada da cara da família. Debocharam, não deram assistência. Comprei o caixão com dinheiro emprestado de uma tia de consideração dele, uns 2 mil reais só o caixão. Ainda estou pagando pra quem me emprestou”, conta. À época, o escritório dos advogados de defesa acusaram a rede de oferecer R$ 100 mil para a família e amigos abandonarem o caso. “Ele [Marcelo] disse que não queria dinheiro, ele queria justiça, queria os culpados na cadeia”, diz nota do escritório, de abril de 2017.

A Ponte também questionou a rede de restaurantes sobre três aspectos: o que aconteceu com os funcionários, os procedimentos internos adotados pela empresa e sobre o auxílio para a família da vítima. Até o fechamento da reportagem, não havia resposta.

Inspiração para livro

A história de vida de João Victor será transformada em livro ao longo deste ano. Uma ficção terá como base a trajetória do garoto, comparada pelo autor, Alexandre Ribeiro, com Capitães da Areia, livro de Jorge Amado, em que um grupo de menores cresce em Salvador, Bahia, sobrevivendo como podiam nas ruas da cidade. Para Ribeiro, tanto a sua quanto a história do garoto são similares, mas as oportunidades direcionaram uma para um fim trágico e a outra para um bem-sucedido.

“O personagem principal terá todas as características que desmembram o João Victor e se junta com minha história e a de vários garotos. Eu comecei a trabalhar muito cedo, 11 anos, por causa da morte do meu pai. Eu saí da na rua vendendo CD, um tráfico de arte. Isso transformou toda minha vida, assim como ele, que teve de trabalhar bem cedo, desde os 9 anos como catador, ajudava o pai na reciclagem, vendia ovo… É o diagnóstico de como falta oportunidade para os garotos pretos da periferia e que, cada vez mais, vivem à margem”, conta o escritor e jornalista.

São quatro meses de pesquisa até o momento. Os trabalho estão em processo de revisão, com perspectiva de o livro ser entregue em fevereiro de 2019. Depois de vender CDs quando garoto, Ribeiro hoje trabalha na Laboratório Fantasma, empresa que tem o cantor Emicida como um dos fundadores. “Sou assistente de produção do Emicida e sei que sou a exceção dessa regra de garotos como o João Victor”, aponta Alexandre Ribeiro.

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