Morador da Mooca divulga endereço e tira foto da casa para intimidar padre

09/04/19 por Arthur Stabile

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Registro foi publicado em grupo do Facebook quando integrantes criticavam procissão programada pelo Julio Lancellotti, atuante junto à população de rua

Padre Julio Lancellotti conforta a mãe de catador de recicláveis morto em SP | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Um morador do bairro da Mooca, zona leste de São Paulo, divulgou o endereço e publicou a foto da fachada da casa onde mora o Padre Julio Lancellotti, pároco da região e atuante junto à população de rua. O caso aconteceu em um grupo do Facebook intitulado Portal da Mooca, formado por moradores do bairro, em tom de intimidação por uma procissão programada pelo padre para o fim de semana.

Identificado como Paulo André, o homem posta mais de uma foto da fachada da casa onde Julio mora com os três sobrinhos – filhos de seu irmão e cunhada falecidos. Em seguida, ele condena o ato. “Lembrando à [sic] todos que próximo domingo, dia 14, haverá passeata pelo bairro desses moradores da Favela do Cimento. Tranquem suas portas, tirem seus carros da rua e reze [sic] para não ser [sic] uma vítima desses arruaceiros”, escreveu, antes de postar uma observação. “Ato organizado pelo Padre Julio Lancellotti, ‘amigão’ da vizinhança”, diz, em tom de ironia.

A manifestação de domingo, segundo explica Julio à Ponte, faz parte da Campanha da Fraternidade desse ano e serve como um “gesto pela paz, pela vida”. A caminhada terá início na Rua Taquari, 1.100, e terminará próximo ao Viaduto Bresser, onde até o dia 23 de março existia a Favela do Cimento, incendiada pelos próprios moradores um dia antes da reintegração de posse avalizada pela Justiça.

Publicação do mesmo homem alerta sobre a procissão | Foto: Reprodução/Facebook

Posteriormente, ele faz alerta indicando para furtos durante a caminhada | Foto: Reprodução/Facebook

O mais novo episódio de ameaça faz Julio ficar receoso, mas não mudar sua rotina nem interromper o trabalho. “Passam do limite. Fotografar a porta da casa?! E a fotografia é de hoje, dá para ver pelo carro estacionado. É um ato de ódio puro, o que falam… Sempre fico com preocupação, moro com meus sobrinhos. Todos sabem onde eu estou: na paróquia. O que espanta é o nível de covardia, intimidação e pressão. Sempre saio muito cedo, não penso em mudar nada da rotina, é continuar o que faço”, diz.

Julio denunciou no ano passado a MP (Ministério Público) as ameaças de morte que vem sofrendo pelo fato de ajudar a população de sua. Integrantes da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) visitaram o religioso quando vieram ao Brasil no ano passado e cobraram do Governo Federal que dê suporte e proteção a ele.

O pároco ainda não sabe se tomara atitudes pelas novas intimidações. “Estamos vendo como fazer, se será com o MP. Avisei a Comissão de Proteção dos Defensores de Direitos Humanos e mandamos para a CIDH”, diz, confirmando que a procissão de domingo “está mantida”.

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