Morre Roberta, mulher trans queimada viva no centro de Recife

Pernambuco registrou quatro transfeminicídios em menos de um mês. Além de Roberta Nascimento da Silva, ataques transfóbicos levaram a vida de Fabiana Lucas, Crismilly Pérola e Kalyndra da Hora

Hospital da Restauração, em Recife, Pernambuco
Fachada do Hospital da Restauração, onde Roberta morreu | Foto: Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco

Duas semanas após ser atacada por um adolescente que nem ao menos conhecia e que ateou fogo ao seu corpo, no centro de Recife (PE), Roberta Nascimento da Silva, 32 anos, morreu na manhã desta sexta-feira (9/7), no Hospital da Restauração. O ataque, ocorrido em 24 de junho, havia deixado Roberta com 40% do corpo queimado.

Além da morte de Roberta, Pernambuco registrou outros três transfeminicídios em menos de um mês, que despertaram protestos da comunidade LGBT+ e de defensores de direitos humanos.

Segundo a assessoria de imprensa do hospital, durante o tratamento das queimaduras Roberta precisou amputar os dois braços. Na semana passada ela já havia sofrido um agravamento do quadro respiratório, sendo intubada e encaminhada para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Além das complicações respiratórias, ela passou a apresentar piora no sistema renal, passando por sessões de diálise. Por volta das 9h, sofreu falência múltipla dos órgãos.

Leia também: Mesmo com pandemia, Brasil registra recorde de transfeminicídios em 2020

O ataque contra Roberta ocorreu na madrugada de 24 de junho, no centro da capital pernambucana. Ela vivia em situação de rua. Em nota encaminhada para a reportagem logo após a internação, a Secretaria Estadual de Defesa Social informou que um adolescente de 17 anos havia sido autuado por ato infracional (delito praticado por adolescente) análogo à tentativa de homicídio qualificado e que, após avaliação do Ministério Público Estadual, ele “foi encaminhado a uma Unidade de Atendimento Inicial (Uniai) da Secretaria de Criança e Juventude”.

De acordo com o G1, que teve acesso ao boletim de ocorrência, testemunhas disseram à Polícia Militar que um homem estaria com a vítima em um barraco de lona e teria ateado fogo a ela, tentando fugir em seguida, próximo ao terminal de ônibus do Cais de Santa Rita. À Ponte, a codeputada Robeyoncé Lima (PSOL), do mandato coletivo Juntas, contou que visitou Roberta um dia após ela ser internada. Ela estava consciente e confirmou o ataque por um jovem de 17 anos, que jogou líquido nela e ateou fogo. Roberta também relatou para Robeyoncé que não conhecia o autor do ataque contra ela.

Ajude a Ponte!

Na manhã desta sexta-feira, ao tomar conhecimento da morte, a parlamentar escreveu em seu Instagram: “infelizmente, mais uma vítima de transfeminicídio em Pernambuco. Todas essas mortes devem ser honradas com a criação de uma política pública que nos proteja da transfobia”.

Em sua conta no Twitter o prefeito de Recife, João Campos, lamentou a morte de Roberta. “É intolerável qualquer vida perdida para o ódio e para o preconceito”. Ele ainda escreveu que uma casa de acolhida LGBTI+ deve receber o nome da vítima.

O transfeminicídio mais recente ocorreu no último dia 7, quando Fabiana da Silva Lucas, 30, foi encontrada morta com golpes de faca às margens da rodovia PE-160 em Santa Cruz do Capibaribe. Três dias antes, o corpo da cabeleireira Crismilly Pérola, 37, conhecida como Bombom ou Piu-piu,  foi encontrado com marcas de tiro no pescoço às margens do Rio Capibaribe. Em 18 de junho, Kalyndra Selva Guedes Nogueira da Hora, 26, foi assassinada dentro de casa, no bairro de Ipsep, na zona sul de Recife.

Kalyndra da Hora, Fabiana Lucas e Crismilly Pérola foram assassinadas em Pernambuco | Fotos: reprodução

Dados da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) contabilizaram 35 assassinatos de pessoas trans em Pernambuco entre 2017 e 2020. A entidade divulgou nesta semana boletim semestral que aponta 80 homicídios de pessoas trans no Brasil em 2021. No mesmo período do ano passado foram 100, sendo que todas as vítimas eram mulheres trans ou travestis. Foi o maior número da série histórica iniciada em 2017.

Procurada, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco não se pronunciou.

Nesta semana, a assessoria do governo de Pernambuco informou que instituiu um “Comitê de Prevenção e Enfrentamento às Violências LGBTfóbica, onde participam as secretarias estaduais da Mulher, de Desenvolvimento Social Criança e Juventude, de Defesa Social, de Justiça e Direitos Humanos, de Saúde e de Educação” a fim de acompanhar casos de violência de gênero. 

Comentários

Comentários

Já que Tamo junto até aqui…

Que tal entrar de vez para o time da Ponte? Você sabe que o nosso trabalho incomoda muita gente. Não por acaso, somos vítimas constantes de ataques, que já até colocaram o nosso site fora do ar. Justamente por isso nunca fez tanto sentido pedir ajuda para quem tá junto, pra quem defende a Ponte e a luta por justiça: você.

Com o Tamo Junto, você ajuda a manter a Ponte de pé com uma contribuição mensal ou anual. Também passa a participar ativamente do dia a dia do jornal, com acesso aos bastidores da nossa redação e matérias como a que você acabou de ler. Acesse: ponte.colabore.com/tamojunto.

Todo jornalismo tem um lado. Ajude quem está do seu.

Ajude

mais lidas