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Pai de uma, mãe da outra

09/08/20 por Caê Vasconcelos

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Homem trans, o empreendedor social Noah Scheffel conta como é ser mãe da filha mais velha e pai da caçula: ‘não tem a ver com gênero, mas com o papel na vida da criança’

Noah com as duas filhas: Helena, de 4 anos, e Anita, de 7 anos | Foto: Arquivo pessoal

Tornar-se mãe de uma criança, passar por uma transição de gênero e virar pai de uma outra. Foi nessa ordem que as coisas aconteceram na vida do analista de tecnologia da informação e empreendedor social Noah Scheffel, 33 anos.

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Quando deu a luz à sua primeira filha, Anita, em 2013, Noah tinha 26 anos e se identificava com o gênero do nascimento, o feminino. Quatro anos depois, veio a transição de gênero: ela passou a ser ele.

A mudança chegou tardiamente para Noah, aos 30 anos, porque temia a reação das pessoas. Até então, tinha receio de como veriam um homem que havia gerado uma criança e medo de não conseguir mais emprego. “Eu percebi desde criança que eu não me encaixava nessa norma cisgênera [de identificação com o gênero do seu nascimento]. Mas fui levando a vida achando que seria melhor que as coisas ficassem daquela forma”, desabafa.

Ele já era Noah em 2018, quando decidiu registrar a paternidade de Helena, filha de sua esposa, preenchendo um vazio deixado na certidão de nascimento da criança por conta do abandono do pai biológico. Nesse dia, quem já era mãe passou também a ser pai.

“Tudo isso veio junto”, conta. Noah precisou conversar com a filha mais velha para explicar que homens também podiam ser mães, já que ela tem o pai biológico presente em sua vida. “As pessoas acham que maternidade e a paternidade têm algo a ver com gênero, mas tem a ver com o papel social que a pessoa desempenha na vida da criança”.

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Para Noah, a responsabilidade entre mães e pais deveria ser a mesma na formação das crianças. “Como sempre foi o mesmo nível de responsabilidade, não é relevante para mim ser mãe ou ser pai”.

“Cuidar, educar, prover os acessos básicos, toda parte da presença e participação na vida é a mesma. Ser mãe ou ser pai, na vivência, fica invisível, porque o que vale é a presença e o envolvimento”, explica.

Noah fez sua transição de gênero tardiamente, aos 30 anos, por temer a reação da sociedade | Foto: Arquivo pessoal

O único problema, explica, é fora de casa. “De um lado, eu apanho porque eu sou mãe sendo homem, o que não pode. De outro apanho por ser um homem trans pai, que também não pode”, lamenta. “A sociedade não aceita nada que fuja da norma de que mãe é a mulher que pariu, porque até questões de adoção ainda são problematizadas, e pai é o cara que tem um órgão genital e a criança partiu disso.”

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A forma que Noah encontrou de usar sua formação para lutar contra a transfobia foi investindo na formação de pessoas trans. Em dezembro do ano passado, criou a EducaTRANSforma, um projeto de capacitação gratuita de pessoas trans para o mercado de tecnologia da informação.

A ideia inicial era focar o projeto em Porto Alegre (RS), onde Noah vive, mas a pandemia levou o empresário a abrir turmas online para os cursos, que já chegaram a 154 pessoas, de diferentes estados.

Com esse trabalho, Noah pretende questionar as empresas que se dizem abertas à diversidade, mas alegam não contratar pessoas trans por falta de capacitação. “Se pessoas trans capacitadas não existem, destruímos esse argumento colocando pessoas trans capacitadas à disposição do mercado de trabalho”, brinca. 

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Para o futuro, o pai e mãe Noah não descarta a possibilidade de gerar mais um filho. “Fico pensando: já tenho duas filhas, o mundo é horrível, vou colocar mais uma criança aqui?”, indaga. “Mas aí, ao mesmo tempo, penso o quão rico de contribuição essas crianças vão trazer se elas já partirem de um local que desconstrói a norma.”

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