PM mata jovem de 16 anos e cria clima de terror no Grajaú

28/05/15 por Luís Adorno e Claudia Belfort

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Policiais colocaram o corpo na ambulância já com uma manta utilizada para cobrir cadáveres, dizem testemunhas. Depois da morte, moradores da região foram agredidos
Lucas Custódio dos Santos, 14 anos

Lucas Custódio dos Santos, 16 anos

Agentes da PM-SP (Polícia Militar do Estado de São Paulo) mataram o adolescente Lucas Custódio dos Santos, o Dudinha, negro, 16 anos, por volta das 14h desta quarta-feira (27) em um terreno baldio na Favela do Sucupira, região do Grajaú, zona sul da capital. Segundo primos e um irmão do jovem, Lucas voltava de um jogo de futebol quando tomou um tiro na perna. Depois do primeiro disparo, assustado, ele tentou fugir e foi alvejado mais vezes. Testemunhas relatam que policiais militares dispararam seis vezes contra o rapaz, acertando três tiros, além da perna, dois no abdômen.

Série de reportagens sobre o caso:
PM mata jovem de 16 anos e cria clima de terror no Grajaú
PMs demoraram 5 horas para informar morte de adolescente
Moradora relata agressões de PM no caso de morte de jovem no Grajaú
“Se você não sair agora, vou dar um tiro bem na sua barriga, matar você e seu filho”
Testemunhas dizem que Lucas estava algemado e que pediu a PMs para não ser morto
Morte de Lucas é a quinta no currículo de PM

De acordo com a corporação, dois adolescentes foram abordados e tentaram fugir. Um conseguiu escapar. A PM afirma que Lucas foi socorrido e levado ao Hospital Maria Antonieta, mas um vídeo, obtido com exclusividade pela Ponte Jornalismo, mostra que o corpo do jovem estava envolto com uma manta térmica. Segundo os moradores da região, ele deixou o terreno coberto por essa manta como um cadáver. Moradores afirmaram, ainda, que um dos policiais envolvidos no caso colocou as mãos na cabeça e disse estar arrependido do que fez. O caso foi registrado no 101o DP (Distrito Policial).

A reportagem pediu explicações à Polícia Militar, à 1h44 desta quinta-feira (28). Às 3h22, a corporação respondeu que “a Polícia Militar esclarece, em nome da transparência que lhe é peculiar, que o respectivo pedido de informação não oferece tempo hábil para o devido levantamento acerca do fato noticiado. Em respeito ao público leitor, encaminharemos a demanda ao Comando local, e responderemos, dentro da razoabilidade, assim que dispusermos dos dados a respeito.” Em contra resposta, a reportagem da Ponte afirmou que, assim que a corporação tiver uma versão para o fato, a matéria será atualizada.

Para chamar a atenção para a morte de Dudinha, moradores da região fizeram uma manifestação, que teve o seu pico por volta das 17h. Segundo a PM, cinco ônibus e um caminhão foram depredados. Os manifestantes também atearam fogo em lixo para interromper o tráfego na avenida Dona Belmira Marin, a principal do bairro. A presença da PM, principalmente do 27o Batalhão e da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), se intensificou para interromper os eventuais atos de vandalismo contra os veículos, mas, ao mesmo tempo, provocou terror em quem protestava. A reportagem da Ponte Jornalismo teve acesso a duas vítimas da truculência policial no Grajaú entre a tarde e a noite desta quarta-feira: Luiz Felipe Rocha de Lima, de 20 anos, pizzaiolo, e C., de 47.

Luiz Felipe Rocha de Lima temeu ter o mesmo fim de Dudinha, seu primo. Pizzaiolo, quando ficou sabendo que o jovem havia sido alvejado, ainda havia a esperança de que ele estivesse vivo. “Ninguém deixava a gente ver [o corpo]. Os policiais alegavam que estava vivo e que estavam prestando socorro. Só que já saiu daqui morto e eles quiseram falar que morreu quando chegou no hospital”, afirmou à Ponte. “Agora pela noite, eu subindo a rua, um policial olhou pra mim e falou ‘o que você tá olhando?’. Eu falei ‘nada, eu só tô te olhando’. Ele olhou pra mim e falou da seguinte forma: pra não ficar olhando pra ele porque ele é bonito, mas que se eu quisesse dar pra ele, eu dava depois.”

“Eu falei pra ele me respeitar porque eu sou homem igualmente a ele e vestia calça igualmente a ele. Aproveitaram da situação, falaram um monte para mim e começaram a me bater. E veio um policial pelas minhas costas e me deu uma bicuda. Aí um outro policial me agarrou e tentou me levar pra dentro do beco pra continuar me batendo, mas eu continuei brigando com o policial, me arrastando para a rua, enquanto eles tentavam me arrastar pra dentro do beco. Nisso, um policial começou a me forçar e eu desmaiei no meio da rua e eles me batendo. Depois eles me acordaram e começaram a me bater novamente e pediram meu documento. E quando eu fui pegar meu documento, o policial cuspiu na minha cara”, relata o primo da vítima fatal, que voltava da igreja depois de saber da morte do menor de idade.

Luiz Felipe é obreiro da Igreja Comunhão e Vida, trabalha com o Pastor Erico Reis, que também conhecia Lucas. “Era um menino tranquilo, andava sempre sorrindo e costumava ir ao culto jovem no segundo sábado de cada mês. Eu o conhecia desde os 5 anos de idade”, contou Reis.

C. não tem nenhum vínculo familiar com Lucas. Mesmo assim, sofreu, psicologicamente e fisicamente, com a morte do jovem. Assim que soube do protesto da avenida Belmira Marin, foi solidária e participou. Levou um tiro de bala de borracha nas costas. Durante toda a tarde e noite, até por volta das 23 horas, vários carros de polícia foram ao local, com agentes fortemente armados, encarando e medindo, da cabeça aos pés, os moradores. Depois deste horário, viaturas da Força Tática iam de um lado para o outro da avenida, devagar, com faróis e sirenes apagados. Os olhares dos policiais eram os mesmos do decorrer do dia. “Até agora [por volta de 1h de quinta-feira (28)] está todo mundo sendo agredido. Quem chega aqui, eles [policiais] agridem. Pega os moradores e levam lá para baixo para espancar”, afirmou a mulher à reportagem.

A população voltou para suas casas por volta de 1h30, vários estavam receosos sobre como será esta quinta-feira. Diversas viaturas da PM permaneceram no local e nos arredores durante a madrugada.


* Colaborou Rafael Bonifácio. / Na primeira versão deste texto, constava que Lucas Custódio tinha 14 anos. A informação foi corrigida às 17h53 de 28/05.

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