RJ registra mais de 6 operações policiais com pelo menos uma morte por dia no governo Witzel

09/07/19 por Arthur Stabile

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Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança aponta para ações mais violentas e letais das polícias, na comparação com o ano passado, em que a segurança pública estava sob intervenção federal; Estado é responsável por 1 a cada 3 homicídios e especialista fala em ‘estatização das mortes’

Policial sobe em cima de casas durante operação policial | Foto: Divulgação/PMERJ

Cada vez mais operações policiais com o aumento das violações cometidas por agentes públicos, da sensação de insegurança passada à população e das mortes provocadas pelo Estado. Esse é o resumo dos primeiros seis meses do governo de Wilson Witzel no Rio de Janeiro na área da segurança pública, segundo estudo da Rede de Observatórios da Segurança.

Os números refletem uma política pública de combate. Afinal de contas, foram 1.148 operações policiais e patrulhamentos somente de janeiro até junho, o que representa mais de seis ações a cada dia. Comparado com o registrado pela intervenção federal de março até o fim de junho de 2018, há um aumento de 84% só nas operações, que pularam de 218 para 403 no mesmo período do governo Witzel.

Esta atuação policial gerou mortes, mais precisamente 222, durante operações e patrulhamentos. No entanto, número longe do total de 731 mortes causadas por policiais em todo o estado de janeiro a junho, o que representa um acréscimo de 20% em relação ao mesmo período de 2018. Estas mortes incluem quando o policial está de folga ou em serviço, mesmo fora de operação.

As estatísticas destacam que o governador Wilson Witzel cumpriu a promessa de que, com ele, a polícia atiraria na “cabecinha”. Comparado com o total de homicídios no estado, as polícia foi responsável por 28,6% de todas as mortes, número que era 16,3% em 2017. Porém, a atuação sanguinária das polícias é maior na capital, representando 38,3% de todas as mortes, e na Grande Niterói, com 38,7%. A letalidade policial foi denunciada à ONU.

Pablo Nunes, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança, explica que a pesquisa quer ir além dos números. Pretende mostrar que não há uma política pública posta por Witzel e seu governo para a segurança, apenas um combate.

“O que tentamos mostrar com esse informe do Observatório de Segurança é que, sob o comando de Witzel, as operações policiais têm sido cada vez mais frequentes, mais letais e mais aterrorizantes. Temos visto um aumento vertiginoso das mortes cometidas por policiais”, diz, citando o aumento de 46% nas operações feitas ao comparar com a mesma época de 2018.

Um desses formatos tem como protagonistas helicópteros usados como plataformas de tiros, os chamados caveirões aéreos, em referência aos blindados terrestres, os caveirões. “Fica a pergunta: que tipo de crime é combatido ou prevenido com policiais em helicópteros atirando a esmo para o chão? Não existe nenhum, logicamente”, afirma Pablo.

O especialista dá um nome para o fenômeno de matança promovida pelo estado: estatização das mortes. “Esse ano, segundo os dados oficiais do ISP (Instituto de Segurança Pública, vinculado ao governo), que confirmam o nosso monitoramento: 731 pessoas foram mortas pela polícia. Significa dizer que, enquanto os homicídios então caindo, e por dinâmicas muito específicas, se tem o aumento do protagonismo das polícias na letalidade”, completa.

As explicações para a queda geral de homicídios não são claras no momento, apenas palpites. Para Nunes, isso se dá, talvez, pelas novas dinâmicas impostas pelo crime organizado, aumento da atuação e fortalecimento das milícias e até mesmo uma possível interferência da intervenção federal.

“O que não podemos colocar como explicação é que o governo Witzel tenha alguma coisa a ver com a queda de homicídios, um crime que demora a ser reduzido com novas políticas até seu efeito”, afirma. “Em seis meses de um governo que não apresentou nenhum plano contundente de redução dos homicídios, muito pelo contrário, tem estimulado a letalidade policial, não me parece um dos indicadores para colocar na mesa como explicação para a queda geral de homicídios”, argumenta.

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