Dona Zilda, Mãe de Osasco: do trabalho doméstico à defesa dos direitos humanos

08/03/21 por Beatriz Drague Ramos

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Zilda Maria começou a trabalhar aos 8 anos e sustentou sozinha, como empregada doméstica, o filho que perderia em 2015 na Chacina de Osasco. Hoje, aos 67, é uma das principais representantes do movimento de mães que perderam filhos no massacre

Dona Zilda Maria de Paula, uma das fundadoras das Mães de Osasco | Foto: Caio Castor / Agência Pavio

“Eu não me acho uma líder, não me acho nem ativista. Agora estão falando que eu sou uma ativista. Pois hoje eu sei como é que se vira uma”, diz em em tom bem humorado a aposentada Zilda Maria de Paula, que aos 67 anos é uma das principais representantes do movimento Mães de Osasco. 

Mesmo não se considerando uma ativista, a camiseta que usava, estampada com a frase “Enquanto viver luto”, marca a posição de alguém que durante os últimos anos esteve na linha de frente da luta por justiça para os crimes ocorridos em 8 e 13 de agosto de 2015 em Osasco e Barueri.

Durante a conversa que aconteceu na calçada em frente ao Fórum de Osasco, a expressão da aposentada era séria e ao mesmo tempo cansada. A tarde chuvosa era a do 5º dia de julgamento do ex-PM Victor Cristilder Silva Santos e do guarda civil municipal Sérgio Manhanhã que culminou na absolvição dos dois pelo júri popular, na última sexta-feira (26/2). 

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O cansaço e a tristeza de quem perdeu o único filho, Fernando Luiz de Paula, de 34 anos, em uma das maiores chacinas da história de São Paulo há quase seis anos misturam-se a uma trajetória de lutas, de uma mulher negra e pobre, nascida na década de 1950 no estado mais populoso do país. 

Dona Zilda, como é chamada por seus conhecidos, é natural do bairro de Perdizes, localizado na zona oeste de São Paulo, onde também foi criada durante a infância. Adotada, ela morava com a mãe, o pai e um irmão. Na adolescência mudou-se para a Brasilândia, distrito da zona norte de São Paulo.

O trabalho veio cedo: aos oito anos, Zilda já fazia faxina em casas de famílias. Em 1975 foi contratada para trabalhar no bairro do Butantã, região também na zona oeste, onde foi empregada doméstica com carteira de trabalho assinada, até a sua aposentadoria. “Trabalhei em uma casa por 43 anos, onde ajudaram a criar meu filho. Eu criei os filhos da minha patroa e eles criaram o meu. Comecei a trabalhar entre os meus oito e dez anos, tanto que eu não tenho o primário, fiz só até o segundo ano”, conta com orgulho.

O nascimento de Fernando veio após muito sacrificio. Dona Zilda sofreu quatro abortos e aos  27 anos se tornou mãe daquele que seria um de seus únicos parceiros da vida. Ela, que foi casada durante 11 anos, se separou quando Fernando tinha apenas três anos, um dos motivos que a levou a morar com sua patroa. “Quando eu me separei fui morar no serviço, ele foi criado lá, tanto que meu filho nunca foi em creche. Na época que ele nasceu eu tomava seis conduções por dia, a minha patroa deixou eu criar meu filho lá”.

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Em 1985 Zilda foi morar em Osasco, no bairro Jardim Munhoz Júnior, favela no limite entre Osasco e Barueri, onde vive até hoje com seus seis cachorros. Ela explica que o local era muito diferente durante a gestão do ex-prefeito Francisco Rossi (PL) e do ex-presidente Fernando Collor (PROS). “Morei no Butantã e depois de dois anos fui morar no Munhoz, que tinha os parentes dele [ex- marido]. O Munhoz era um bairro mais vazio, não tinha nem polícia naquela época, foi a época do Rossi com o Collor. O Rossi que asfaltou lá, era uma cidade que estava começando”.

Hoje conhecida pela famosa feijoada que faz em sua casa para receber amizades adquiridas nos anos de lutas, Zilda sempre foi recolhida, apesar de não ter problemas no bairro com a sua segurança e a de seu filho. “Era eu e ele, meu filho tinha muitos amigos, eu saía cedo para trabalhar. Tem vizinho lá que às vezes eu acabava conhecendo no ônibus, chegava a noite e ficava em casa. As minhas amizades não eram dali, mas eu me dava bem com os vizinhos”.

Segundo ela, o policiamento começou a aumentar de acordo com a expansão populacional. “A polícia tinha, mas aumentou quando o bairro começou a crescer, a ter pronto-socorro, essas coisas, que chamam de progresso. Meu filho era abordado só porque era da favela, tanto que na investigação ele não tem passagem. Os [mortos na chacina] que tinham passagem foram enquadrados na Maria da Penha. Por isso que eu dou a minha cara a tapa, eu já escutei ‘tava no bar era bandido’, mas quando são os caras do Jardins, da Vila Madalena, não são [bandidos]”, crítica, angustiada com o resultado do julgamento que sairia em menos de uma hora.

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Junto com o aumento populacional veio a violência. Anos depois, o bairro foi palco da morte de oito pessoas assassinadas na chacina dentro do bar do Juvenal, em 13 de agosto de 2015. O filho de dona Zilda estava entre os mortos daquele dia. “Aqui em Osasco sempre tiveram crimes, matavam dois, três e com a chacina achavam que ia ficar a mesma coisa, sem punição”. 

Segundo ela, a retaliação às mortes de dois policiais que provocaram a chacina, foi planejada no enterro dos agentes. “Os delegados falaram que os caras que mataram os policiais moravam na minha área, e segundo a Defensoria, os assassinos dos policiais já estavam presos, então eles mataram de ruindade. Fiquei sabendo que a organização da chacina começou no cemitério, quando foram enterrar eles e por coincidência as vítimas foram enterradas no mesmo lugar. Meu filho morreu pela segurança que ele tinha, ele dizia ‘eu não devo nada para a polícia’. Mas desde quando o policial quer saber se você deve ou não?”, questiona em tom de revolta. 

Logo depois da morte de seu filho, Zilda teve de reconhecer o corpo. A lembrança rapidamente mudou seu semblante que já era sério e angustiado. “Tive que reconhecer o corpo do meu filho e assinar o óbito no cartório. Andei com vida e morte do meu filho, eu estava com a certidão de nascimento em uma mão e com a certidão de óbito em outra. Enterrei meu filho no sábado, a família veio, queriam me levar embora para fora da favela, eu não quis, eu pensei que se eu saísse de lá não iria entrar mais, não ia dormir sozinha. Tenho que me acostumar porque a minha vida é essa”. 

Ao ser questionada sobre como foi o dia da chacina, a expressão de dona Zilda logo se silenciou e depois a resposta foi categórica: “Não gosto de responder essa pergunta, todo mundo já sabe”.

União das mães e luta por Justiça

Um mês após a chacina, as mães das vítimas se uniram a partir da aproximação do advogado Wil Schmaltz, além da da ONG Rio de Paz, que colaboraram com o mapeamento do endereço de todas as famílias afetadas pela chacina e sugeriram a união das mesmas para reivindicar justiça por seus entes. “O movimento das mães aconteceu com um advogado da Rio de Paz, ele falou para nós nos unirmos e estava todo mundo com medo, mas conseguimos formar o grupo, quase um mês depois”, explica a aposentada. 

Ainda assim, o movimento caminhou a passos lentos. O medo de represálias ao se expor e a decepção com a justiça criminal dificultou a união das mães algumas vezes, como explicou dona Zilda. “Aí fomos trazendo as mães. Eu puxo as reuniões na minha casa, mas no começo eu ficava brava. Eu chamava para a reunião e ninguém aparecia, aí eu fui obrigada a jogar o verbo: ‘O dia que isso acabar, o dia que a indenização sair, cada uma vai pro seu canto’, eu dizia”. 

Na trajetória, os obstáculos surgiram, mas mesmo assim, Zilda persistiu. “Eu fui em alguns atos sozinha, muitos não pagam refeição. Já fui parar até no Rio de Janeiro, que eu nem conhecia. Perdi muitas viagens de encontros com mães de Alagoas e Minas, porque eu não tenho com quem deixar meus cachorros”.

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O próprio lutar de Dona Zilda incomoda. Durante o julgamento da Chacina de Osasco, ocorrido no final de fevereiro de 2021, João Carlos Campanini, o advogado do ex-PM Victor Cristilder Silva Santos e do guarda civil municipal Sérgio Manhanhã, utilizou 122 páginas de prints do Facebook de Dona Zilda na exposição a defesa, destacando a relação de Zilda com jornalistas e o vínculo com outros movimentos de mães que lutam contra a violência do Estado.

Uma nota divulgada na última semana pelas Mães de Osasco e Barueri e mais oito grupos, repudia a utilização de publicações pessoais de Zilda e de um vídeo calunioso em que a ex-promotora Ana Maria Frigério Molinari associa as Mães de Maio ao PCC por Campanini. “Essa nota já fala tudo, é o repúdio das Mães de Maio e o repúdio de ele ter entrado no meu Facebook. É uma resposta. Ele tentou enfraquecer a nossa luta”, afirma Zilda.

Além da tristeza que atravessou o tempo, desde o início dos ataques, passando pela espera por justiça e a saudade que seguirá, dona Zilda e as mães de Osasco conquistaram apoios de diversos movimentos sociais, sobretudo de outros grupos de mães espalhados pelo país.

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A empatia é fruto de uma dor que só quem é mãe e perdeu um filho pode sentir. “Já falei para elas [mães] que eu vou continuar, mas são elas que nos carregaram. Se hoje eu luto, devo muito para as mães, às Mães de Maio, às mães da Zona Leste, inclusive quem peitou a segurança de Osasco no início foram as Mães de Maio”, finalizou.

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