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Ex-detentos e ativistas se unem para ajudar presos e familiares durante pandemia

09/04/20 por Arthur Stabile e Paulo Eduardo Dias

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Coletivos enviam comida e itens de higiene para os presídios, enquanto outras ações buscam auxiliar suas famílias e ex-detentos

Entre as principais necessidades estão aparelhos para barbear, materiais de limpeza e desodorantes | Foto: Arquivo pessoal

Um ano e oito meses presa por um crime que não cometeu foi tempo suficiente para a dançarina Bárbara Querino, a Babiy, conhecer o sistema prisional e as dificuldades de quem vive nesse ambiente.

Em meio ao coronavírus, Babiy decidiu agir quando o governo de São Paulo anunciou suas medidas preventivas à pandemia destinadas ao sistema prisional: proibição de visitas e da entrega presencial do jumbo, sacolas levadas pelas famílias com comidas, itens básicos de higiene e até remédio aos presos.

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Agora, a entrada é permitida somente através dos Correios, alternativa classificada como cara pelas famílias. A Ponte mostrou o caso de uma mulher que gastava R$ 30 a cada viagem para levar alimentação ao marido, de ônibus, e o custo subiria para R$ 90 com o envio postal.

“Com a suspensão do jumbo presencial, vimos que isso poderia impactar mais ainda na falta desses itens dentro das penitenciárias, já que nem toda família tem condições para montar o jumbo e ainda pagar um Sedex”, explica Bárbara.

Babiy permaneceu presa por um crime que não cometeu e do qual já foi inocentada. Há outro processo, também por roubo aos passageiros de um carro, correndo no Tribunal de Justiça de São Paulo. Em ambos os casos, ela foi reconhecida irregularmente por vítimas brancas pelos cabelos cacheados e, desde o início, afirmou ser inocente. Em mais de uma oportunidade, Babiy destacou o caráter racista de sua prisão. O processo está parado desde outubro de 2019, quando um dos desembargadores do caso pediu mais tempo para analisar as provas.

Barbara Querino com as doações | Foto: arquivo pessoal

Desde o momento em que pisou fora da prisão, a dançarina atua para impedir o encarceramento em massa, sem deixar de lado quem segue preso. Ao lado de outra mulher negra, a psicóloga Tati Nefertari, 24, Babiy criou a campanha “Vidas Carcerárias Importam”. A ação visa garantir que os presos tenham acesso aos itens básicos de prevenção ao coronavírus.

“O projeto surgiu após algumas denúncias de presos sobre não terem água nem para lavar a mão e nem para beber. Eles próprios chamando atenção para essa necessidade por conta do coronavírus”, detalha Babiy.

Entre os produtos que podem ser doados, estão pão de forma, manteiga, sabonete, sabão em pó, detergente, desodorante transparente, aparelho para barbear, absorvente e pasta de dente.

Babiy explicou que o projeto conta com a participação do Coletivo Ujima Povo Preto, do qual Tati é integrante, além de outras pessoas. Segundo ela, o objetivo é atingir a maior quantidade de presos possível.

“Eu, que já passei pelo sistema carcerário, sei que lá é precário de tudo e que qualquer doença se agrava muito mais rápido do que na rua. Sabemos que não iremos conseguir atender a todas as pessoas no sistema carcerário, mas tentaremos ajudar o máximo de pessoas que podermos”, afirma Babiy Querino.

Além do projeto para auxiliar detentos, ela ainda está envolvida numa campanha que arrecada cestas básicas para serem distribuídas na região do Jardim Ibirapuera, na zona sul da capital paulista.

Tati Nefertari na Biblioteca Comunitária Assata Shakur, que possui acervo com livros de autoras e autores negros | Foto: reprodução/Facebook

“Minha preocupação no campo racial e de encarceramento começou através do rap, quando fiz parte da Família Rap Nacional e desenvolvemos campanha contra a redução da maioridade penal, depois disso as coisas foram seguindo por esse rumo”, conta Tati Nefertari, que também coordena a Biblioteca Comunitária Assata Shakur, que possui acervo com livros de autoras e autores negros e sobre questão racial.

Mulheres que (R)Existem

Babiy e Tati não são as únicas. Pelo contrário: a iniciativa delas incentivou outra ação, esta com recorte de gênero e, portanto, voltada apenas para mulheres presas. Uma conversa da socióloga Rosângela Teixeira com a artista Daniela Machado e a egressa do sistema prisional Camila Felizardo gerou a seguinte preocupação: sem família e sem o jumbo presencial, como elas se prevenirão do coronavírus?

“Para mulheres, a situação é mais complexa. Infelizmente ainda é grande o número de presas que são abandonadas pelos seus familiares, pelos companheiros. Perdem seus vínculos”, afirma Rosângela.

Sede da Amparar se localiza na zona leste de São Paulo | Foto: Arquivo/Ponte

Na conversa, nasceu o coletivo Mulheres que (R)Existem. A ação prevê juntar itens de higiene para ajudar quem está do lado de dentro dos muros da prisões. Babiy teve seu papel e, após conversa com a dançarina, as criadoras destinarão 20% do valor recolhido em sua vaquinha para a ação da jovem.

“Primeiro será em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, depois em Santana, na capital. Temos R$ 2 mil arrecadados desde sexta-feira (3/4) para comprar água sanitária, detergente, sabonete, pasta de dente… Estamos recebendo doações em casa e transferência bancárias para fazer compra em mercado”, detalha Rosângela.

Auxílio para as famílias

Além dos presos, suas famílias também sentem os impactos da pandemia. A Amparar (Associação de Amigos e Familiares de Presos) tem recebido inúmeros pedidos de ajuda em todo o estado de São Paulo. São famílias que perderam suas rendas com o isolamento social.

Railda Alves, fundadora da associação, explica que a maior parte dos parentes de detentos trabalha de forma autônoma para manter suas casas e garantir o envio do jumbo aos familiares. Entre as mulheres, ela conta que a profissão de doméstica é a mais comum.

“Está muito difícil nesse momento, as famílias estão muito necessitadas”, explica. Como exemplo, ela menciona uma família de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “Uma mulher toma conta de seis netos, o filho está preso, e é doméstica. Como faz?”, pergunta.

A Amparar se aliou à Uneafro Brasil, responsável por uma ação que coleta cestas básicas e itens de higiene para doação, com a meta de diminuir os impactos da pandemia. Até o momento, entregaram 60 cestas para famílias de presos que vivem nas cidades da Grande São Paulo. A meta é aumentar a distribuição e levar até o interior.

Distribuição de cestas básicas no Núcleo Mabel Assis, em Guarulhos (SP) | Foto: Divulgação/Uneafro

“Estamos aguardando 200 cestas para poder ajudar nesse momento imediato”, afirma Railda, detalhando que a próxima ação é preparar o jumbo, assim como faz Babiy. “Temos três casos já, mandamos para Ribeirão Preto também. As meninas estão vendo a questão do Sedex”, diz.

Para quem já esteve lá

Outra ação ajuda quem deixou o sistema prisional e não tem conseguido oportunidades de emprego. O projeto Recomeçar existe desde 2015 e faz a ponte entre as pessoas que precisam de emprego logo após cumprirem suas penas e as empresas que têm vagas. Tudo começou com o ex-detento Leonardo Precioso.

“Enxergamos que a pessoa depois que sai só tem sua dignidade social restaurada a partir do momento em que ela começa a gerar renda e ter o pão em casa”, explica. Com a pandemia, as oportunidades, que já não são tantas, minguaram. Então Leonardo decidiu mudar o foco de ação.

Luciano mostra um dos 700 tickets a serem entregues aos egressos do sistema prisional| Foto: Divulgação/Recomeçar

Conversou com os parceiros e, junto com a organização social Gerando Falcões, da cidade de Poá (Grande SP), encontrou a forma de auxiliar os ex-detentos: doar 700 vales-alimentação para quem não está empregado.

“Nós entendemos que através do relacionamento conseguiríamos suprir as necessidades básicas dos egressos. Chegamos a 500 vales-alimentação já entregues com R$ 100 para este mês e mais R$ 100 nos próximos dois meses”, detalha Leonardo.

Como ajudar

Vidas Carcerárias Importam
Itens arrecadados: alimentos (pão de forma e manteiga) e produtos de higiene (sabonete, sabão em pó, detergente, desodorante transparente, aparelho para barbear, absorvente e pasta de dente)
Pontos de arrecadação
Biblioteca Comunitária Assata Shakur – Rua Chaberá, 190, Vila Formosa, zona leste
Bloco do Beco – Rua Bento Barroso Pereira, 2, Jardim Ibirapuera, zona sul
Doações em dinheiro
Banco: Caixa Econômica Federal
Agência: 4557
Operação: 013 (poupança)
Conta: 00009609-3
Bárbara Querino Oliveira
CPF: 467.401.758-02
Contato: [email protected] / Instagram

Mulheres que (R)Existem
Associação dos Artistas e Produtores do Centro de São Paulo
Banco do Brasil
Agência 6806
Conta 13.242-x
Associação dos Artistas e Produtores do Centro de São Paulo
CNPJ 32.877.709/0001-66

Amparar + Uneafro Brasil
Doações de alimentos e materiais de higiene podem ser feitas na sede da entidade, na Rua Eugênio Albani, número, 150 sala F – Cohab 2, no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo.
As doações para a Uneafro podem ser feitas por vaquinha online clicando no link.

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