‘Viverei pela minha filha’, diz mãe de Laura Vermont, mulher trans assassinada há 4 anos

30/09/19 por Paloma Vasconcelos (texto) e Pedro Ribeiro Nogueira (vídeo)

Compartilhe este conteúdo:

Julgamento dos acusados de assassinar Laura em SP foi adiado duas vezes e a família se apega às lembranças para encontrar forças para lutar por justiça

Laura Vermont, 18 anos, tinha tudo para não fazer parte das estatísticas de pessoas trans no Brasil: o amor da família. Mas, apesar disso, em 20 junho de 2015, ela foi brutalmente assassinada depois de ser espancada por 5 homens na avenida Nordestina, na Vila Nova Curuçá, extremo leste de São Paulo.

De 2015 para cá, 692 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, segundo dados da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais). Só em 2015, foram 113 crimes. De janeiro até 25 de setembro de 2019, já são 87 assassinatos.

Os pais de Laura Vermont, Jackson e Zilda (da dir. para esq.) no Vermont Pet Shop | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

A história de Laura foi revelada pela Ponte em 2015. Na época, a reportagem divulgou um vídeo que mostra a perseguição e o espancamento da jovem transexual durante a madrugada de 20 de junho, antes de ser socorrida pelos seus próprios pais, Zilda e Jackson Laurentino. Na páscoa deste ano, a Ponte passou o dia com a família de Laura, que já vive há 4 anos sem a alegria de Vermont.

Quando Laura foi assassinada, a família cuidava de uma padaria, mas já tinha tudo pronto para abrir um salão de cabeleireiro para a caçula trabalhar. Com a partida de Vermont, a ideia do salão se desfez. Os produtos e os equipamentos foram doados. Hoje, Zilda e Jackson já não atuam mais na padaria.

Depois que o irmão de Zilda ficou doente, passou para eles a responsabilidade de um pet shop, duas ruas acima da casa onde o casal mora atualmente. A morte de Laura fez com que eles mudassem da Vila Nova Curuçá para o Parque Santa Rita, cerca de 20 minutos de distância do antigo bairro. Zilda e Jackson, para superar a perda da filha caçula, hoje trabalham de segunda a segunda no Vermont Pet Shop.

Após dois adiamentos do julgamento dos acusados de matar a jovem, a Ponte volta a conversar com os familiares de Laura Vermont. Os cinco civis réus – Van Basten Bizarrias de Deus, Jefferson Rodrigues Paulo, ambos de 24 anos, Iago Bizarrias de Deus, Wilson de Jesus Marcolino, os dois com 20 anos, e Bruno Rodrigues de Oliveira – seriam julgados por um júri popular em 7 de maio de 2019, mas o julgamento foi adiado pela ausência de duas testemunhas fundamentais do caso, tanto para a acusação quanto para a defesa.

Zilda conta que trabalha de segunda a segunda para ocupar a cabeça depois da morte da filha caçula | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

Três meses depois, em 16 de setembro de 2019, o júri popular foi novamente adiado. Segundo a advogada da família Vermont, Carolina Gerassi, o Ministério Público solicitou à Justiça Militar a cópia integral dos autos do processo dos policiais que abordaram a Laura na noite em que a jovem foi assassinada.

“Esse pedido foi feito meses atrás, mas a Justiça Militar não enviou os documentos requisitados pela acusação. Isso fez com que tivéssemos que decidir se insistíamos nos documentos ou se fazíamos o júri sem os mesmos. O Ministério Público entendeu que os documentos eram importantes, assim como a defesa insistiu na vinda de uma testemunha que faltou. Na próxima sessão essa testemunha vai ser intimada coercitivamente. Dessa vez, faltaram duas testemunhas, uma de defesa e outra comum de acusação e defesa”, disse a advogada à Ponte.

Laura Vermont: a alegria da casa

Aos 13 anos, a jovem Laura Vermont começou a ficar com meninos. Dois anos depois, iniciou a transição. Desde o começo teve o apoio de sua irmã mais velha, Rejane, e, na transição, de seus pais, Zilda e Jackson.

A aceitação de pessoas trans no núcleo familiar não é comum, mas faz toda a diferença na vida de uma pessoa LGBT+. No Especial Trans, divulgado pela Ponte em janeiro de 2018, algumas histórias de aceitação e não aceitação mostram a diferença na trajetória dessas pessoas: quando há aceitação em casa, as dificuldades nas ruas são menores.

Desde o primeiro momento, Laura Vermont teve o apoio de sua família. Zilda Vermont, que agora usa o sobrenome escolhido pela filha e não mais o Laurentino, sobrenome da família, conta com orgulho como foi o momento em que Laura contou aos pais que era uma mulher trans. Apesar da aceitação em casa, Laura fazia parte da Família Stronger, coletivo LGBT+ que acolhe pessoas LGBTs da zona leste de SP que não tem aceitação da família biológica.

O que acontecia fora de casa, dificilmente chegava aos ouvidos dos familiares. Laura preferia guardar para si as pequenas transfobias (preconceito baseado na identidade de gênero) do dia a dia para não preocupar sua família que, diferente da jovem, não aceitavam calados. Rejane Laurentino de Araújo, 37 anos, irmã mais velha e protetora de Laura, relembra algumas histórias.

laura vermont
Desde o começo da transição, Laura teve o amor e o apoio dos familiares | Foto: arquivo pessoal

“Ela nunca falava se mexiam com ela. Sempre falava que o dia foi perfeito, maravilhoso. Eu via ela chorando no quarto e às vezes ela me contava que mexiam com ela, mas pedia pra eu nunca falar com os meus pais”, conta Rejane.

Depois de uma confusão na porta da escola, em que seu pai a defendeu, Laura, que à época estava com 16 anos, decidiu que pararia de estudar. Sua família aceitou, mas a fez prometer que continuaria estudando em casa.

“O preconceito na rua é tão grande, o pessoal já te olha com tanta indiferença, se não tiver o amor em casa, como você vai conseguir viver? Se nem seus pais, sua família, te aceita? Tem que ser muito guerreira, tem que lutar muito e querer realmente. Todos os lugares que uma pessoa LGBT está tem olhares diferentes”, afirma Rejane.

A transição de Laura, conta Rejane, só teve uma diferença no tratamento da família com a caçula: o amor aumentou. Até o seu avô paterno, como conta Zilda, a aceitou de cara. “E o vô? Quando eu falei pro Vô Simonal, que é o pai do Jackson? Ele fez ‘mas isso não é nada não menina, isso já é antigo, deixa minha neta ser feliz'”, relembra Zilda entre sorrisos.

“[A transição] não mudou em nada o amor que a gente sentia por ela. Na real aumentou mais ainda, porque aí tem o cuidado e a preocupação. Quantas vezes eu saí com ela e falaram alguma coisa e eu quis retrucar, mas ela não deixava? Laura dizia que eu era pequena, mas folgada. Ela tinha quase dois metros de altura e eu com um metro e meio do lado dela. Ela me chamava de ‘chaveirinho’. Eu dizia que eu era pequena, mas por ela eu virava um leão”, explica Rejane. 

Laura de Vermont
Laura de Vermont tinha 18 anos quando foi espancada e assassinada em junho de 2015 | Foto: arquivo pessoal

Zilda conta que a filha caçula era a alegria da casa. “O quarto dela era todo colorido. Quando ela cismava, saia colorindo tudo e a gente tinha que acompanhar. Era alegria demais. Você podia estar caindo, estar morrendo, mas a Laura estava rindo. A Laura ria de tudo, não tinha tempo pra tristeza. Só se via ela rindo. Eu tava me afogando na praia e a Laura tava rindo. Eu caí no corredor e precisei ser socorrida, Laura ficou rindo e ligou para a irmã: ‘venha socorrer a mãe que eu vou pra balada'”, conta Zilda.

Rejane acobertava as aventuras de Laura, ou “passava pano”, como diz Zilda para provocar a filha mais velha, e conta com saudade dos momentos de alegria que traz nas lembranças.

“Era assim: Laura ligava pra mim e falava que queria sair, mas que a mãe não iria deixar. Aí eu ia buscar ela e trazia pra casa. Minha mãe ligava pra falar com a Laura e eu enrolava pra passar o telefone. Nisso minha mãe esquecia e Laura saía. Depois eu pegava e buscava ela. Ela também saia escondida da casa da minha mãe, mas sempre me avisava onde tava indo. Aí era onde minha mãe ia atrás, eu entrava no carro junto e avisava que a gente estava chegando, pra Laura sair”, relembra a irmã.

“Tinha vezes que a gente passava, minha mãe via, apontava, e eu pulava lombada, fazia a volta, deixava o carro morrer, tudo pra ela não achar a Laura”, conta Rejane em meio às risadas. “Eu passava, não tinha jeito. Laura era o meu bebê, né? Ela passava muito tempo comigo aqui em casa. A minha filha mais velha era muito apegada à Laura. Todo aniversário era aquela bagunça. A gente virava a noite brincando e jogando conversa fora”, continua.

Rejane conta, também, os primeiros indícios de que Laura era LGBT, que desde o começo via nela uma confidente. “A Laura tava com 13 anos quando nasceu a minha primeira filha. Foi quando aconteceu tudo [a transição]. A gente já percebia que desde a infância ela gostava de coisa só de menina, mas nessa época ela gostava que a gente chamasse ela de Gugu. Ela foi com o meu marido e as minhas sobrinhas buscar um uniforme do Corinthians no Shopping Tatuapé. Mas eles demoraram muito, foram chegar em casa já ia dar 1h da manhã”, conta.

Esses encontros que Rejane conta eram comuns no estacionamento do Shopping Tatuapé, na zona leste, e reuniam muitos jovens LGBTs todas as segundas-feiras. “Foi quando ela começou a ir ao Tatuapé toda segunda-feira e me contava que estava ficando com meninos. Eu perguntava se ela tinha certeza que era isso e ela falou que sim. Eu tomei um baque, mas sabia que era melhor estar junto dela. Eu sabia tudo o que estava acontecendo, por isso eu encobria muito as coisas. A gente ficou muito próxima. Ela ia para lá e voltava de madrugada. Foi quando ela começou a usar as roupas de Laura. Todo mundo aceitava tudo, todo mundo aceitou a transição. Foi tudo muito rápido”, detalhe Rejane à Ponte.

Rejane foi a primeira a saber que a irmã era uma mulher trans. Em seguida, foi a vez de Zilda e Jackson. “As minhas roupas sumiam, as minhas bolsas sumiam. Aí quando ela me contou, eu fui a primeira a sair com ela pra comprar roupa. Saímos, fomos em uma loja e compramos algumas roupas. Aí ela me perguntou ‘mãe, e o pai?’. Quando chegamos em casa, ela chamou o pai e disse ‘vou te mostrar a roupa que eu comprei, posso?’. O pai disse que podia, ela foi no quarto, se trocou e perguntou pro pai o que ela achava”, detalha Zilda.

“Ele perguntou se ela tava se sentindo bem. E ela disse que se sentia bem com aquela roupa. O pai então disse: ‘Eu só tenho medo de você do portão pra fora’. A preocupação dele sempre foi essa. O maior medo da gente era isso. O pai só ficava sossegado quando ela chegava em casa”, recorda a mãe de Laura.

Jackson e Zilda ao lado do altar com fotos de Laura | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

Esse medo do portão para fora, conta Zilda, tinha relação com as idas de Laura ao centro da cidade. Mas foi a poucos metros de casa, que Laura foi assassinada.

“Quando eu via algum caso na televisão, eu falava pra ela ver, mas ela tinha uma convicção tão grande de que nada ia acontecer com ela que isso passou pra mim. Eu não sabia que era desse jeito. Hoje eu sei como que é, hoje, se eu tivesse minha filha, ia ser diferente. Eu não sei se ia conseguir segurá-la, mas que eu ia tentar eu ia. Quando ela começou mesmo a transição, eu pensei em ir embora do bairro e ela me dizia que não precisava, porque todo mundo aqui aceitou ela de boa”, desabafa Zilda à Ponte.

No dia em que Laura foi espancada, Rejane estava se recuperando do nascimento da segunda filha, Julinha, a quem Laura só teve tempo de ver duas vezes. Durante muito tempo, Rejane se sentiu culpada pela morte da irmã, já que estava mais afastada por conta do novo bebê.

As sobrinhas de Laura ao lado de Rejane e Zilda | Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

“Quando a minha irmã morreu, minha filha mais nova tinha 20 dias. Com cinco dias que eu sai do hospital, já foi o acontecido. Nesse dia que ela saiu eu pedi pra minha mãe não deixar ela sair, mas é aquela coisa não tinha como segurar. A gente ainda conversou depois que ela saiu, mas daí eu parei de receber mensagens e comecei a perceber a movimentação em casa. Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa. Aí minha tia, que já faleceu, desceu em casa e me pediu pra ficar calma. E eu falando que estava calma. Aí foi quando ela me contou que a Laura tinha morrido. Eu fiquei revoltada, fiquei revoltada porque fiquei afastada da minha irmã depois que tive a minha segunda filha. Mas daí eu entendi que tinha que acontecer, que não era culpa minha ou da minha filha”, desabafa Rejane.

Apesar de viver apenas 18 anos, Zilda e Rejane contam que Laura viveu de tudo. Vermont dizia para a mãe e para a irmã que, quando fizesse 18 anos, seria famosa. “Ela teve todas as fases dela. Eu tenho 37 anos e não vivi um terço do que ela viveu. Parece que já tava escrito realmente. Foi tudo muito rápido, muito intenso. Foram 18 anos bem vividos. Ela sempre falou que quando ela fizesse 18 anos iria embora de casa, iria viajar e seria muito conhecida, muito famosa. E na real… ela completou 18 anos e ficou famosa”, relata Rejane.

“Ela tinha uma convicção muito grande que com 18 anos viajaria para muito longe. Mas eu falava que iria junto e ela me olhava e falava que eu não poderia ir. Ela dizia que seria famosa e que o nome Laura Vermont estaria em todos os lugares. Hoje quando eu vejo alguém falar que vai fazer 18 anos eu tenho pavor”, completa Zilda.

Zilda, apesar de toda dor e inconformismo, conta que a morte de Laura não foi em vão. “Tem Centro de Cidadania com o nome dela, a história da nossa família está em um livro. Por intermédio de Laura, surgiu o Centro de Cidadania, surgiu a Parada LGBT da zona leste. Muitas famílias que não aceitavam os seus filhos chegaram a nos procurar e hoje vivem bem. Muitas pessoas me abraçam quando vou em eventos e dizem que Laura inspirou eles. Eu ouço isso direto. Ela se tornou uma lenda”, se emociona a mãe.

Foto: Pedro Ribeiro Nogueira/Ponte Jornalismo

Para seguir em frente, Zilda se apega a fé a conta que não desistirá até que a justiça seja feita. “Eu não me conformo. Por que tanta maldade? Somos seres humanos. Quando a gente morre, vamos todos pro mesmo lugar, debaixo da terra. Deixa a pessoa ser feliz. Deus é amor, Deus não é sexo, é amor. Eu luto por justiça e vejo tanta impunidade na rua… tem horas que eu penso que vou ficar louca. Eu viverei por justiça e vivo pela minha filha. É por ela que eu estou aqui hoje. É Deus que tem me dado força. Se não é Deus eu não tinha nem saído daquele cemitério. Eu não vou enquanto a justiça não for feita, leve o tempo que levar”, brada Zilda.

Outra coisa que mantém Zilda em pé é o sonho de abrir uma casa de acolhimento para LGBTs expulsos de casa. Quando a reportagem questiona o nome que essa casa teria, Zilda não pensa duas vezes: Casa Laura Vermont.

“Eu só queria ter dinheiro pra abrir uma casa de acolhimento. Quem sabe um dia eu consigo fazer isso? Eu pegaria esse pessoal que vive nas avenidas, trabalhando e sendo exploradas. Eu queria colher esse pessoal todo”, confessa.

Comentários

Comentários

Compartilhe este conteúdo: