Na semana da Visibilidade Trans, covereadora Carolina Iara afirma ter escapado de atentado a tiros

27/01/21 por Caê Vasconcelos

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Eleita junto com a Bancada Feminista do PSOL na capital paulista, parlamentar travesti conta que estava com mãe e irmão quando sua casa foi alvejada; “não vão me calar”, diz

Carolina Iara, de turbante, ao lado de Natália Chaves (à esquerda) e Silvia Ferraro na porta do DHPP | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Dois tiros feitos dentro de casa, em Itaquera, na zona leste da cidade de São Paulo, teriam acordado a mãe da parlamentar Carolina Iara de Oliveira, 28 anos, covereadora da Bancada Feminista do PSOL, às 2h10 da madrugada de terça-feira (26/1). Um dos projéteis ficou alojado na parede da sala e um no muro, segundo ela.

Carolina Iara é travesti intersexo e foi eleita como covereadora na cidade de São Paulo com 46.267 votos. No momento dos disparos, Carolina, a mãe e o irmão estavam no local, mas ninguém ficou ferido. Na hora, contou a parlamentar à Ponte, ela achou que pudesse ser alguma bala perdida, mas na manhã seguinte passou a achar que era um atentado político.

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Imagens obtidas por uma câmera de segurança do vizinho da frente de Carolina mostram um carro branco, com vidros escuros, parado na frente da casa da covereadora por aproximadamente 3 minutos, entre às 2h07 e 2h10. A covereadora também confirmou com os vizinhos o horário dos tiros: 2h10. Carolina teve que sair às pressas de casa com a família.

Nesta quarta-feira (27/1), a parlamentar esteve no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, no centro da cidade, para denunciar o atentado. Porém, o caso foi registrado pelo delegado Tiago de Sousa Delgado como dano e disparo de arma de fogo.

“Não podemos permitir que São Paulo tenha uma Marielle Franco trans. Eu peço para as autoridades da cidade e do estado de São Paulo para que me deem, junto com as minhas companheiras de Bancada Feminista, proteção”, clamou Carolina em breve coletiva de imprensa na porta do DHPP, extremamente abalada psicologicamente com o atentado.

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, também do PSOL, executada na noite de 14 de março de 2018, até hoje não teve uma resposta em relação aos mandantes do crime. Desde então, parlamentares negras do Psol vêm sofrendo recorrentes ameaças de morte. Talíria Petrone (PSOL-RJ), deputada federal, já denunciou diversas vezes ameaças contra a sua vida. Benny Briolly (PSOL), recém-eleita a primeira travesti vereadora de Niterói (RJ), também foi ameaçada durante a campanha.

Carolina também pediu por proteção do Estado. “Ainda estamos em uma democracia, fomos eleitas com 46 mil votos, não é possível que esses 46 mil votos sejam deslegitimados com dois tiros na minha casa”, lamentou.

“Eu tive que sair fugida da minha casa. É inadmissível que uma parlamentar tenha que viver na clandestinidade na maior cidade do país. Sair de casa fugida vai ser um trauma que eu vou levar para a minha vida, mas não vão conseguir me calar”, completou Carolina.

A covereadora conta que nunca recebeu alguma ameaça de morte, mas, após ser eleita, recebeu dezenas de assédios, sexuais e morais, em suas redes sociais. “Eu tenho 10 anos de militância, é assustador, é estarrecedor”.

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A três dias do Dia da Visibilidade Trans, argumenta Carolina em entrevista à Ponte, esse atentado é uma denúncia. “É uma denúncia de que uma mulher negra e trans, que consegue ascender a um poder institucional, não está segura. As pessoas trans continuam sendo alvejadas em suas casas”, lamenta.

“É uma tentativa de me calar. Não dá para dizer o motivo específico, se foi um crime de ódio por transfobia, se foi um cala-boca político, mas o fato é que todo o conjunto que eu represento politicamente é o que deu motivo para acontecer isso”, finaliza.

Ativistas estiveram na porta do DHPP para prestar apoio à Carolina Iara. À Ponte, Symmy Larrat, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos), afirmou que, mesmo que não seja comprovada uma ligação direta com o crime de transfobia, “uma pessoa trans recém-eleita incomoda e isso é uma tentativa de minar a nossa chegada a lugares de poder”.

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“É muito preocupante e aterrorizante essa tentativa de acabar com qualquer esperança e luta por conquistas que possam diminuir a vulnerabilidade que a gente vive. Isso é um exemplo de tudo o que falamos: a transfobia existe”, completa Larrat.

Simone Nascimento, integrante do Movimento Negro Unificado, aponta que a violência estrutural racista e a transfobia são responsáveis pelo atentado. “Vivemos no país que mais mata travestis e transexuais no mundo e isso também é uma violência política cotidiana. A gente precisa falar sobre a garantia de direitos humanos para essas pessoas”.

Para Simone, o que aconteceu com Carolina Iara é um reflexo do que acontece todos os dias com pessoas trans e travestis. “Nossa sociedade é racista, transfóbica, patriarcal e machista. Todos dias a população negra e transgênera é vítima dessa sociedade. Quando você pensa em uma mulher trans e negra, você pensa em intensificação do ódio que não reconhece esse corpo como humano”.

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Dimitri Sales, presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), aponta que o atentando à Carolina Iara tem natureza política. “Sem que houvesse prévia ameaça, a covereadora foi alvejada em sua residência por tiros, que tem a finalidade de inibir a sua atuação, já que é uma militante ativa dos movimentos sociais”.

“Carol leva com o seu corpo e sua experiência uma diversa representatividade para a Câmara Municipal de São Paulo. Esses tiros são uma tentativa de intimidar a sua atuação política e, por essa razão, caberá uma rigorosa apuração dos fatos e o Condepe vai cobrar a Secretaria de Segurança Pública”.

Outro lado

A reportagem procurou a Secretaria da Segurança Pública para perguntar sobre a decisão do delegado Tiago de Sousa Delgado em registrar o caso apenas como dano e disparo de arma de fogo e sobre as medidas que podem ser tomadas para reforçar a segurança de Carolina, mas a assessoria de imprensa da pasta se limitou a enviar a seguinte nota: “a vítima compareceu na tarde desta quarta-feira (27) à sede do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Ela foi ouvida na 1ª Delegacia de Polícia de Repressão aos Crimes contra a Liberdade Pessoal, onde a ocorrência foi registrada como dano e disparo de arma de fogo. A unidade responsável pela investigação já encaminhou perícia técnica para o local dos fatos e as apurações prosseguem.”

Errata em 30/4, às 8h – A Ponte errou ao tratar os acontecimentos narrados pelas entrevistadas como um fato, e não como afirmações a serem investigadas. O texto foi reescrito para deixar mais claro o que é fato e o que é depoimento não verificado.

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