Rute e o holocausto de Davi

Davi Fiúza tinha 14 anos em 2014, quando foi capturado por PMs em Salvador (BA) e sumiu. Investigação apontou que matar Davi foi um “batismo” para PMs que estavam se formando. Sua mãe, Rute, ainda espera, e luta, por justiça

Ilustação: Junião

Para marcar os 15 anos dos Crimes de Maio, a Ponte publica 15 perfis de mulheres que perderam familiares para a violência policial, originalmente publicados no livro “Mães em Luta”, organizado por André Caramante e editado por Ponte e Mães de Maio em 2016

A década era de 1970. O bairro, Chapada do Rio Vermelho, na periferia de Salvador, Bahia. A menina Rute, criada pelos avós, Clarisse e Justino, enquanto a mãe trabalhava dia e noite como doméstica, dormindo na casa dos patrões, tinha um melhor amigo. Davi.

Davi e Rute eram quase inseparáveis. Aprenderam a ler quase juntos, sendo alfabetizados por gibis. Brincavam nas ruas de barro da periferia nordestina. Talvez os dois não saibam, mas o destino iria uni-los durante uma vida inteira. Pelo menos, com relação a ela, a menina Rute.

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Assim como nas mais bonitas histórias de romance infantil, como Mônica e Cebolinha, os dois fizeram uma promessa, que se pode dizer de amor. Não foi um laço de sangue, tampouco os nomes ou iniciais grafados em uma árvore afastada dos pais.

— Davi, se um dia eu tiver um filho, ele terá o seu nome.

— Pronto. Se eu tiver uma menina, ela se chamará Rute.

Isso se fortaleceu à medida em que seu pai a abandonou. Quando a menina tinha 5 anos, o pai foi embora para Aracaju (SE), sua origem. Aquela menina nunca mais viu o pai. A mãe, então, deu à Rute, quando ela tinha entre 13 e 14 anos, dois irmãos, um menino e uma menina. Não supriu a vontade de ter uma presença paterna ao seu lado enquanto criança.

O tempo passou. E Rute se tornou mocinha. Uma estudante dedicada, que nunca repetiu de ano ou sequer ficou de recuperação. Orgulho da família Fiuza. E mais: a menina era danada mesmo. Aprendeu a ler sozinha, em casa, por curiosidade. Até que, quando ela já sabia ler e escrever, foi colocada pelos avós na escola, onde só aperfeiçoou as habilidades de estudo. Dona Clarisse, dona de casa, e seu Justino, funcionário público do Estado da Bahia, sempre foram seu alicerce. A mãe ia para a casa em que vivia para visitar a todos aos finais de semana. Casa sempre cheia. Primos e tios. Conversas, risadas e brincadeiras. Sempre.

— Vó, vô, menina arretada que sou, quero fazer judô. Ou qualquer outra arte marcial.

Mas, naquela época, o sonho da menina, de poder praticar esporte, era distante de sua realidade. As atividades físicas eram pagas. E caras. Muito difícil para seu Justino arcar sozinho. O sonho foi adiado cerca de 20 anos. Só com 31 ela conseguiu se matricular numa academia de judô. Um conhecido fez um preço camarada e ela conseguiu praticar a arte marcial.

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Coincidência do destino, ou não, a lutadora Rute teve seu primeiro emprego, aos 16 anos, em uma academia de judô. Ela trabalhava como atendente durante o dia, realizando as matrículas dos alunos e apresentando o espaço aos interessados, e estudava à noite.

— Você vai trabalhar meio turno, então é justo que receba meio salário. Tudo bem?

— Tá certo. Aceito.

Durou alguns meses. A academia fechou. Rute já tinha 17 anos e queria desbravar o mundo. Salvador parecia ter ficado pequena para aquela nordestina arretada. Com o dinheirinho conseguido no primeiro emprego, decidiu mudar seu rumo.

— Vó, vô, me vou pra São Paulo tentar a vida.

— Vá com Deus, minha filha. Mande notícias.

Rute pegou um ônibus. Três dias e três noites mal dormidas. Algumas paradas para banho e lanche. Chegou na região da Luz, no Centro de São Paulo, às 7h. Perambulou pelo local. Se surpreendeu com a selva de pedra e aço, bem diferente do seu lugar. E, em São Paulo, pensou:

“Rapaz, o que é que vou fazer da minha vida?”

Viu uma banca de jornal. E foi conversar com o atendente.

— Senhor, preciso de um emprego. Sabe onde tão necessitando? Serve qualquer coisa.

— Senhora, este jornal tem algumas vagas. Vá ali naquele orelhão, do outro lado da rua, e tente a sorte.

— Obrigada, moço.

Tuuu. Tuuu. Tuuu.

— Alô.

— Alô. É… Oi. Vi seu anúncio no jornal. O senhor precisa de uma empregada doméstica?

— Menina, você é de onde?

— Sou de Salvador. Acabei de chegar em São Paulo.

— Menina, onde você está? Vamos marcar uma entrevista.

Às 10h30 daquele mesmo dia, Rute estava empregada. Foi contratada como doméstica na casa de um baiano, também de Salvador e que estava em São Paulo havia 30 anos com sua família. Ela cuidava de uma menina, filha do casal que lhe havia contratado.

“Tem coisa melhor que baiano? Parece que a gente se entende e se ajuda mais que os outros”, pensou Rute.

Mas não durou muito. Menos de um ano, começou a bater uma saudade.

— Nem eu sabia que era tão ligada assim aos meus avós, minha família. Preciso voltar.

Com a mesma atitude que teve para ir a São Paulo, Rute decidiu voltar para Salvador. Estava chegando o Carnaval. E a fama do Carnaval da capital cinza não era das melhores. Para uma baiana, não ia funcionar. Voltou para o Nordeste, cantando:

“Baby vem kiss me
E na beirada da multidão Em cima do caminhão Ele fala:
Todo mundo vai dançar Todo mundo vai mexer
Comandei o carnaxe:
Eu sou negão Eu sou negão
Meu coração é a liberdade É a liberdade…”

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Em ritmo de Carnaval, Rute se apaixonou logo na chegada à sua cidade natal. Ficou cinco meses intensos com um baiano daqueles. Engravidou de Camila, sua primeira filha. O relacionamento não prosperou como ela sonhou porque o baiano tinha outra mulher. Que também estava grávida.

— Eu ou ela.

— Ela.

Ela, a outra mulher, tinha 40 anos. Rute, 18. Rute não se abalou. Como boa guerreira, pegou Camila nos braços e decidiu dedicar sua vida para cuidar e não deixar nunca faltar nada à sua menina. Foi isso o que aconteceu. Fez de tudo, de forma digna, para criar bem Camila. Passou por lanchonetes, farmácia, supermercados, sempre como balconista, para levar o pão e o leite para dentro de casa. Quando as coisas apertavam, também fazia bicos como faxineira em comércios ou de doméstica em casas de Salvador.

Ainda jovem, com uma filha nos braços, Rute passou a conhecer na prática o sentido da palavra resistência. Percebeu a necessidade de revitalizar as energias. Procurou uma religião. As portas da Igreja Batista se abriram para ela. E ela se sentiu bem. Passou a frequentar.

Lá, conheceu um rapaz bonito. Chefe do departamento de bebidas e alimentos em um famoso hotel da cidade. César. Apaixonou-se e casou. E teve mais três meninas. Karolina, Beatriz e Priscila.

— César, ainda quero um menino.

— Vamos tentar mais um?

Veio. Um menino sorridente. Mas havia algo errado. Um problema no fígado fez com que o garoto, ainda sem nome, ficasse hospitalizado por 15 dias. Ele estava com a cabeça e o corpo furados com algumas agulhas.

— Rute, vou registrar o garoto. Vou dar o nome de Erasmo Carlos.

— O nome dele não vai ser Erasmo. O nome desse menino é Davi. E, assim como Davi que derrotou Golias, ele vai se demonstrar forte e ficar muito saudável.

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Davi Santos Fiuza nasceu. Por coincidência, depois do registro, Rute lembrou da promessa feita ao seu melhor amigo de infância. O filho dela, o primeiro homem, teve o mesmo nome do seu antigo parceiro. O menino, diferentemente da maioria dos bebês, não dava trabalho para Rute e César. Não costumava acordar durante a noite, por exemplo. Cuidar de Davi era uma paz.

O casamento com César começou a ir mal das pernas depois de 11 anos de união estável. O sentimento acabou. Davi tinha 2 anos de idade. Em sua terceira gravidez, Rute engordou. Chegou a pesar 94 quilos. César, como se estivesse no Império Romano, não aceitou. Brigas começaram a acontecer e, para que o respeito mútuo se mantivesse e para que as crianças não precisassem acompanhar as desavenças, decidiram ir cada um para o seu lugar.

Rute nunca parou de trabalhar. Nessa época, estava como ajudante de serviços gerais. Vaidosa, decidiu realizar aquele antigo sonho das artes marciais. Tentou uma academia de judô, mas era muito cara. Aí foi em outra, com preço acessível, daquele conhecido. Fez musculação e kickboxing. Em 2 meses, perdeu 18 quilos. Seguiu emagrecendo cada dia mais.

“Estavam me dando 50 anos. Agora, ninguém tem a coragem de me dar mais de 21 anos”, pensava.

Os filhos foram para a creche. Ficavam o dia inteiro na escolinha e, à noite, Rute os buscava, dava comida e os colocava para dormir. Na escola, desde o início, os professores alertavam a Rute que Davi não conseguia interagir e acompanhar os ensinamentos como os demais alunos. Era superativo e tinha muitas dificuldades.

— Imagina, professora. Isso é coisa de criança.

O tempo passou. Davi nunca conseguiu sair do primário, do ensino fundamental. Rute tentava mudar Davi de escola, conversar com os professores e orientá-lo, mas ele nunca conseguira desenvolver. Apesar de ser o mais velho da sala de aula, Davi não sofria bullying dos colegas. Era um adolescente extrovertido, engraçado e, até mesmo, mulherengo. Tinha, pelo menos, nove namoradinhas.

— Pô, mãe, a senhora pega muito no meu pé. Vou morar com painho.

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Rute costuma dizer que César era bem mais permissivo com Davi do que ela. Com o pai, não havia horários fixos para comer, dormir, estudar e brincar. Com ela, tinha. Quando começava a apertar a rédea, ele, amante da liberdade, como a mãe, preferia o pai.

— Davi, então fique com seu pai durante a semana e, nos fins de semana, comigo, tá certo?

— Tá certo, mãezinha.

Rute criou suas quatro filhas e seu único filho com amor e carinho. Mas com as meninas não havia uma relação de mãezinha aqui, mãezinha ali. Era uma relação mais de respeito e desapego. Com Davi era diferente. O menino tinha uma ligação muito forte com a mãe. Eles conseguiam se comunicar apenas com o olhar. O menino ficava o tempo inteiro no pé de Rute, a enchendo de carinho.

— Davi, você vai quebrar meus ossos com esse abraço tão forte, menino!

— Vou não — e continuava apertando Rute.

Era espontâneo. Muitos abraços e beijos.

— Talvez seja por que pedi demais ele a Deus. Queria muito ele. Na verdade, de início, queria todos os meus filhos homens. Meu mundo é muito masculino. Minha casa sempre foi rodeada de primos, tios. Talvez por isso, tentei a quinta gravidez — reflete Rute.

Em 2012, Rute levou Davi para conhecer Pernambuco. Juazeiro, Petrolina. Era uma vontade grande de conhecer os dois locais. Assim como Rute, as irmãs também queriam muito um menino na família. Único homem de irmão, era mimado por todas. Principalmente por Beatriz. Tudo o que ele queria, as irmãs davam um jeito de arrumar.

— Mãe,comprei esta camiseta e esta sandália para Davi.

— Mais uma, Beatriz?

— Mais uma.

Em 24 de outubro de 2014, Davi vestia justamente a camiseta e as sandálias dadas por Beatriz, quando foi abordado e levado no camburão por 23 policiais militares da Bahia, sendo 19 do curso de formação da corporação. O adolescente foi vítima de um preciosismo de homens que vestem a farda da PM baiana. Passou pelo o que chamam de batismo.

— Vocês somem com um jovem negro da periferia e têm como prêmio a honra de vestir e ostentar o manto da Polícia Militar do Estado da Bahia—conta Rute.

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O desaparecimento de Davi ocorreu 16 dias depois de o adolescente completar 16 anos, em 8 de outubro de 2014. Foi a última vez que as cinco mulheres que mais o amavam tiveram chance de mimá-lo. Foi seu último aniversário.

— Isso aconteceu quatro meses depois de ele receber o maior baque de sua curta vida— lembra Rute.

O avô de Davi, pai de César, desapareceu em junho de 2014. Eles eram muito ligados. Quase tanto quanto ele era próximo à mãe. Talvez tenha sido a primeira e única vez na vida em que Davi tenha ficado abalado.

Aquele dia 24 era uma sexta-feira. Dois dias antes, eles haviam chegado de uma viagem de Aracaju, terra do avô materno de Davi, quem ele nunca conheceu. O menino foi para a casa do pai e Rute decidiu ligar para o filho.

— Vá para a casa da sua irmã. No final de semana, vamos ao shopping.

— Tá bom. Traz um negócio para mim.

Negócio era dinheiro ou presente. Normalmente, Rute comprava perfumes para Davi. Na quinta-feira, mãe e filho tomaram café juntos. Beijos e abraços acalorados, como sempre, antes da despedida. Era hora de trabalhar.

— Vou pra casa do pai.

— Te ligo à noite.

Rute cumpriu a promessa e ligou. Mas a ligação só caiu na caixa de mensagens. Foram várias tentativas. No dia seguinte, vizinhos do pai afirmaram: policiais levaram Davi. O horário beirava 7h30. O bairro, São Cristóvão, próximo ao aeroporto internacional de Salvador.

— Que policiais?

— Tão dizendo que são da 49ª CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar). Estavam fazendo ronda a manhã inteira aqui.

A vida de Rute desmoronou. Foi à delegacia indicada, a quartéis e no IML (Instituto Médico Legal) tentar saber o que havia acontecido com seu filho.

— Devem ter levado meu filho para transplante de órgãos, para o exterior. É um absurdo ele não estar em nenhum lugar.

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Dois dias depois, no dia 26, o primeiro protesto. Vizinhos, familiares e uma igreja evangélica se mobilizaram e foram às ruas do bairro onde Davi sumiu. Lá, Rute descobriu que Davi tinha pelo menos 9 namoradas.

— Dormi com ele outro dia, dona Rute.

— Estava com ele há uns dias.

— Éramos apaixonados.

Um chororô danado por Davi. Nos dois primeiros meses, Rute ficou sem conseguir se alimentar de tanta angústia. Não tinha mais ânimo para sequer pentear o cabelo. E não conseguia dormir em hipótese alguma.

— Não consigo dormir. Tenho medo. Não sei do quê, mas tenho medo.

Pela segunda vez em sua vida, a religião lhe confortou. Apesar de não ser testemunha de Jeová, muitas pessoas ligadas à essa crença foram visitar e conversar com Rute, para tentar acalmar a dor que invadira seu coração. Ela passou a acreditar na ressurreição. E, assim, espera que Davi esteja bem, num lugar melhor.

— Uma esperança de paz.

Rute ainda sente dificuldade em falar sobre o filho, depois de ter lutado tanto para que a justiça fosse feita. Doou tudo o que fazia referência a ele. Mudou-se de casa e de bairro. A irmã, Karolina, ainda tem roupas dele. A avó materna tem algumas fotos.

— Meu Deus, como fui capaz de fazer tudo aquilo?

— Tudo aquilo o quê, dona Rute? — contesta um dos centenas de repórteres que bateram em sua porta para tentar levar à população o desaparecimento do menino.

— Sempre fui acomodada. Nunca lutei por nada. Na verdade, sempre me achei incapaz de lutar, principalmente com pessoas muito acima, como é o governo. Quando penso em tudo o que fiz… Corregedoria, gritei no quartel… Tantos policiais me olhando. Quando penso que fiz um discurso na Câmara dos Vereadores com plenário cheio…

No discurso na Câmara, Rute desconfiou que havia policiais a observando, à paisana, sem a farda da PM baiana.

— Um me olhou de maneira feia. Olhei de volta. Fui mais forte que ele, porque ele abaixou a cabeça.

A partir daí, passou a dedicar a vida a tentar esclarecer o desaparecimento do filho. Foi em um evento da organização não governamental Justiça Global, no Rio de Janeiro. Lá, conheceu Débora Maria da Silva, do Movimento Mães de Maio, e Mônica Cunha, da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência.

— No primeiro dia, não me perguntaram nada. No dia seguinte, teve um encontro. Havia um pessoal da Anistia Internacional, uma organização não governamental do México e as pessoas começaram a falar.

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No encerramento do evento, Rute discursou sobre o desaparecimento de seu menino. Algumas pessoas choraram de emoção. Débora, das Mães de Maio, foi uma das pessoas que mais chorou.

— Vieram todas me abraçar de uma só vez. É algo que vai ficar na minha memória pra sempre.

Desde então, Rute, Débora e Mônica formaram um trio. Com Mônica houve algo que Rute chama de afinidade de alma.

— Já fui na casa dela, e ela virá na minha em breve. Quero que ela conheça a minha família.

À época, a imprensa baiana repercutiu o caso em todos os jornais e emissoras de televisão. Em São Paulo, o caso foi retratado pela Ponte Jornalismo e, depois, teve repercussão no Sudeste pelo jornalista Ricardo Boechat ter chamado o sumiço de Davi Fiuza de “Amarildo da Bahia”, relembrando o pedreiro que sumiu no Rio de Janeiro, também após abordagem policial.

Quando o caso estourou em Salvador, outras mães, que tiveram histórias semelhantes, se reuniram e foram apoiar Rute. Eram umas oito mulheres. O que aconteceu com os filhos delas só rendeu uma nota curta nos jornais. Não houve cobrança para que o governo estadual se mexesse para encontrar os jovens sumidos e punir os policiais envolvidos. No caso de Rute, uma das filhas é jornalista. E divulgou o que aconteceu aos colegas de imprensa, que se sensibilizaram.

— As mães, que se reúnem até hoje, me dizem que os policiais voltavam ao local onde pegaram os filhos delas e falavam que, se fizessem um estardalhaço, morreriam. Sempre polícia.

Somente em 2018 a Polícia Civil concluiu o inquérito sobre Davi e indiciou 17 policiais militares por homicídio. De acordo com a investigação, comandada pelo delegado Reinaldo Mangabeira, os policiais militares, divididos em oito carros da 49ª CIPM, faziam uma operação final para obtenção do diploma de soldado, na manhã daquele dia 24 de outubro.

Segundo o inquérito da Polícia Civil, os policiais militares sequestraram Davi na rua São Jorge, após o abordarem, por volta das 5h45. Os alunos eram supervisionados por quatro PMs da 49ª, com patentes como tenente, sargento e cabo. A investigação ainda concluiu que os equipamentos de GPS e rádios comunicadores estavam desligados no dia da operação, justamente para tentar impedir a localização das viaturas.

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A ação seria a última etapa para que os novatos conseguissem o título de soldado da PM. Os alunos estavam com a missão de trazer um adolescente chamado Ícaro, que teria envolvimento com o crime na região do bairro de São Cristóvão. Com a ordem dada, os quase policiais se dividiram em grupos e passaram a abordar moradores, inclusive invadindo casas.

Segundo testemunhas, Davi havia saído para ir à casa de uma garota. No caminho, o adolescente parou para conversar com um morador, próximo de um carro da PM. De acordo com a investigação, foi quando ele foi abordado e levado.

O Ministério Público da Bahia, contudo, teve um entendimento diferente da Polícia Civil e denunciou apensa 7 PMs. Eles respondem por sequestro e cárcere privado, não homicídio.

A família Fiuza persiste na busca por Justiça. Rute embarga a voz, mas diz não ter dúvida alguma de que seu filho, sendo inocente, foi torturado e morto, de forma covarde, por agentes do Estado.

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— Desses 19 que estavam em formação, tem aquela coisa do batismo, que falam. Naquele momento, eles decidiram fazer o holocausto do meu filho. Davi passou pelo holocausto. Depois disso, eles [PMs] foram agraciados e entraram na Polícia Militar.

A mãe de Davi afirma que ele é apenas mais um jovem, negro, da periferia, vítima da Polícia Militar. O corpo de Davi Santos Fiuza nunca foi encontrado. Mas sua presença permanece viva na vida da família Fiuza. Os nomes de Rute e Davi, desde a década de 1970 unidos, ficarão para sempre como símbolo na luta por Justiça.

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